Publicado por: Lohran Anguera Lima | 13/06/2010

Shaun Tomson: um defensor do apartheid?

Em 1948, nascia, na África do Sul, a aplicação de uma das mais abomináveis e errôneas concepções já criadas pelo homem: a da “superioridade” racial, posteriormente conhecida como apartheid. Em 1955, nascia, também na África do Sul, aquele que dizem ser um dos homens mais revolucionários da história do surf: Shaun Tomson. Mas, será que tão revolucionário assim? A meu ver, não.
 
O sul-africano em questão, embora tenha defendido importantes bandeiras do surfe pelo mundo afora ao lado de Peter Townsend, Wayne “Rabbit” Bartholomew e Mark Richards – como no memorável inverno havaiano de 1975-1976 –, isentou-se de defender a mais significativa delas: aquela contra a violenta e incabível segregação nas praias da África do Sul. No período do apartheid, praticamente todas as praias sul-africanas eram destinadas, apenas, aos brancos, sendo os negros proibidos de freqüentá-las. Desse modo, tanto as ondas como a prática do surfe eram vedadas à população negra.
 
Shaun, filho de família branca, cumprindo dever civil, serviu ao exército de seu país – o mesmo que perseguia os negros e fazia valer o regime do apartheid – durante mais de 2 anos. Entretanto, não fora esse acontecimento o qual despertou certa revolta neste que vos escreve, mas o fato de alcançar enorme sucesso e exposição na mídia mundial sem sequer expor ou denunciar o que acontecia nas praias do seu próprio país. Shaun Tomson foi um negligente nesse aspecto, visto que não apenas fechou seus olhos para a realidade de sua nação como também deixou de abrir os do mundo.
 
No inverno havaiano de 1975-1976, os quatro nomes que aparecem neste artigo (P. Townsend, S. Tomson, W. Bartholomew e M. Richards) mostraram ao mundo o que estava por vir: surfe veloz, vertical, agressivo e irreverente. A mídia especializada, então, concentrou todas as suas matérias, entrevistas, colunas e artigos nos quatro jovens rebeldes. Assim como seus três amigos australianos, Shaun Tomson soube aproveitar as câmeras e a repercussão para alterar, drasticamente, o modo de se portar em cima de uma prancha. O grande problema é que tudo parou por aí, ou seja, Shaun jamais utilizou de sua imagem – mundialmente conhecida e respeitada – para denunciar o que acontecia nas praias da África do Sul. Shaun defendia a liberdade, mas só aquela em cima das pranchas, não a social, tão necessária aos negros sul-africanos.Visto ser uma personalidade tão notável, Shaun possuía uma obrigação social com a sua nação, entretanto, omitiu-se e calou-se no referente ao fato de a maioria do seu povo ser impedida de desfrutar da mesma natureza, das mesmas praias e das mesmas ondas que ele tinha a seu dispor. Shaun foi um indolente e um apático em relação à realidade do seu país e, infelizmente, deixou passar a chance de denunciar as injustiças que lá ocorriam. Shaun não foi tão revolucionário quanto podia.
 
Neste momento, um questionamento passa a ser quase inevitável: ao entrar para o exército nacional, estaria Shaun Tomson apenas cumprindo um dever civil ou estaria mesmo é defendendo suas ideologias de apoio ao apartheid? Não sei se há uma resposta definitiva para isso, mas sei que Shaun Tomson só conseguiu ser a referência que foi e ainda é por ter sido um branco numa África do Sul em que negros não viviam. Quantos Shaun Tomsons negros tiveram seus talentos suprimidos e suas estrelas apagadas pelo deplorável regime do apartheid?
 
Shaun Tomson foi, talvez, um grande defensor da bandeira branca na África do Sul; pena que, certamente, não era a da paz.
 
Muito obrigado a todos,
 
Lohran Anguera Lima.  

À esquerda, praia apenas para brancos na África do Sul; foto: David Stock. À direita, o omisso Shaun Tomson; foto: Aroyan.


Responses

  1. Começo pouco de Shaun Tomson e de outros surfistas omissos, de muitos outros atletas omissos, de muitos outros artistas omissos, de muitos outros cientistas omissos, de políticos omissos e de religiosos omissos, sejam da África do Sul, sejam do apartheid americano (Lei da Miscigenação) que durou de 1.863 a 1.967 (104 anos) que impedia o sexo e o casamento inter-racial ou mesmo, do apartheid alemão de (1935 a 1945) que determinava a supremacia ariana. Se Shaun não merece crédito como defensor da igualdade humana, deve ser registrado, porém, sejamos cuidadosos para não pendurarmos somente um no “Monte das Oliveiras”.

  2. nada aveh cara, nao força a barra. E desde qndo era obrigaçao dele isso(denunciar o apartheid etc), vc ja pensou no lado dele, nas implicaçoes q teria em assumir uma posiçao? …entao todos q viveram na Alemanha nazista eram nazistas??

    q hipocrisia, querer viver a propria vida eh errado?

    …e os milhoes q vivem na EXTREMA pobreza no Brasil, vc faz alguma coisa significativa para melhorar a vida deles…

    sei lah…… nao tire conclusoes do q vc nao tem ideia …… forço a barra…

    • Discordo de sua posição. Pela relevãncia mundial deste atleta e sabendo do que se passava em seu país, deveria sim ter assumido uma posição clara e contrária a aquele regime infame. Pois outros surfistas fizeram o mesmo pelo mundo afora, como Tom Currem e Tom Carroll, que resolveram inclusive boicotar, à época, o Gunstom 500, etapa realizada naquele país. Ignorar tamanho sofrimento da maioria (isso mesmo, maioria) negra do país, acabou sendo conivente com tal situação.

  3. Alemao, se você tinha dúvida quanto ao que eu faço para melhorar a vida dos brasileiros, acho que agora não tem mais:

    Lohran Anguera Lima
    Near The Ocean
    http://www.neartheocean.wordpress.com

  4. Hahahahahaha. Boa, Lohran.
    PS: Alemao otário.

  5. O Lohran tem razão.
    Quando estás numa posição em q podes ser ouvido por milhares de adolescentes, q estão naquela fase em q podem pender para um lado ou outro, então tens a obrigação de falar e expôr as situações completamente reprovaveis q se passam no dia a dia.
    Tens obrigação enquanto ser humano inteligente e evoluido, em ajudar aqueles q precisam de se livrar de opressão, seja ela de q tipo for.
    Ao não agires, estás a compactuar com o sistema.
    Podem dizer o q quiserem, traz complicações, a sua vida social pode ficar afectada, muitas pessoas podem discordar e não quererem ser associadas a ti, mas tudo isso é secundário.
    Os teus verdadeiros amigos é q contam.
    E esses vão estar sempre do teu lado a apoiar-te e a sentirem orgulho por estares a tentar fazer este mundo um sitio melhor para ti e para os outros.


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