Publicado por: Lohran Anguera Lima | 03/11/2010

O porquê da morte de Andy Irons

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Muito já se especulou sobre o falecimento de Andy Irons (surfista havaiano 3 vezes campeão mundial), mas o que se sabe, de fato, é que ele estava muito doente nas últimas semanas, provavelmente com dengue hemorrágica (contraída em Portugal, numa das etapas do World Tour de 2010), tanto que não chegou a competir no Rip Curl Pro Search 2010 (etapa realizada em Porto Rico).

Andy, mesmo doente, viajou a Porto Rico com o intuito de competir. Perdeu os dois primeiros rounds por W.O. – visto estar debilitado -, decidindo, portanto, voltar ao Havaí imediatamente. Antes de partir, foi avaliado por um médico. Sabe-se que a decisão de retornar ao Havaí foi tomada, exclusivamente, por Andy. No caminho de volta, o surfista desceu em Dallas (ainda não se conhece o real motivo de sua parada na cidade do Texas), local onde faleceu no dia 2 de novembro de 2010.

Depois das homenagens prestadas, e das condolências feitas, é hora de refletirmos acerca do que aconteceu de errado nesses dias os quais foram determinantes no falecimento de Andy Irons e do que vem acontecendo de errado durante todos esses anos com a saúde dos surfistas do WT.

Primeiro ponto: é inaceitável imaginar que atletas tão profissionais, importantes e valiosos – como Andy Irons e como todos os outros surfistas do WT – não viagem com um médico particular. Como eles se sentem seguros e confortáveis, apenas, com o médico da etapa? Geralmente, é um médico para atender todos os atletas. Que absurdo! Se conseguir um médico particular for muito trabalhoso e incômodo para o competidor, as marcas patrocinadoras, então, deveriam possuir um médico exclusivo para os atletas da sua marca, algo que até hoje eu não vi. Atleta não pode viajar sem técnico, mas sem médico pode, é isso? Bela mentalidade!

Segundo ponto: acho que já passou o momento de elevar o surf de competição a um outro nível de profissionalismo. Andy Irons decidiu, por conta própria, mesmo bastante doente, fazer duas viagens longas, desgastantes e estressantes (uma de Portugal para Porto Rico, outra de Porto Rico para o Havaí). Surfista sabe escolher onda, não procedimento médico. Cadê o aconselhamento médico de um atleta tri-campeão mundial? Ninguém disse para ele que viajar só iria deixá-lo mais debilitado? Ninguém o diagnosticou corretamente? Ninguém o restringiu quanto aos medicamentos que poderiam ser tomados? É isto o que eu vejo nos bastidores do surf de competição: cada surfista faz o que quer; ele toma todas as suas decisões com pouco ou nenhum conselho de um “responsável”. Ele pode ser dono da sua pessoa, da sua particularidade (e deve!), mas uma empresa não pode permitir que ele aja sem compromisso com o que ele representa. É necessário saber distinguir qual decisão é pessoal e qual é profissional.

Terceiro ponto: atletas de elite deveriam se preocupar muito, mas muito mesmo, quando fossem acometidos por alguma doença. Presume-se que atletas de elite sejam, extremamente, saudáveis, fortes e bem preparados para momentos de altíssimo estresse (físico, principalmente); portanto, se alguma doença consegue derrubá-los, é indício de que a doença foi forte, mas forte mesmo. É fácil empurrar uma bicicleta para o desfiladeiro, mas um trator não. Os atletas de elite (os “super-saudáveis”) são os tratores; e trator só cai no desfiladeiro se passar um tornado. Gripezinha fraca não faz nada com o atleta de elite, ele nem sente. Já malária, dengue hemorrágica, overdose, … , esses são os tornados.

O Near The Ocean lamenta muito a perda de Andy Irons e deixa seus sinceros sentimentos a sua esposa Lyndie, a seu irmão Bruce, a seu filho vindouro, aos outros familiares e amigos. Andy já está fazendo falta, mas jamais esqueceremos o que ele nos deixou ao longo dos seus 32 anos de vida. Que Deus o receba de braços abertos e no maior espírito do aloha. Ele o está esperando com um colar havaiano em mãos, pronto para dar as boas-vindas, tenho certeza.

Requiem in pace, Andy Irons.

Lohran Anguera Lima.

Andy Irons (1978-2010)


Responses

  1. Levantou ótimos pontos. Espero que a perda de Andy faça os managers do tour repensarem todo o acompanhamento médico que tem sido feito com os atletas..

  2. Não desmerecendo o escopo dos demais “posts”, porém o presente é, sem dúvida, o de maior relevância no que tange ao âmbito do “surf”. Não obstante o fato que culminou nessa redação haja sido infortunado, o assunto ora abordado foi muito pertinente. Ademais, convém ressaltar que os seus “posts” merecem um veículo de comunicação de maior visibilidade ( jamais desmerecendo o seu “blog”), haja vista o embasamento teórico e os supedâneos utilizados para tais feitos.

  3. Ola.

    Infelizmente todos as respostas e argumentos que colocarmos sobre a questão da Morte do Atleta é cabivel e ajustavel.
    Mas oque todos esquecemos é da verdadeira prevenção, em um momento tão delicado como esse de Saúde antes de ser tomada a decisão de fica ou não fica, faz ou não faz, deve-se procurar uma opnião Médica sempre pois só mesmo ele pode identificar tais Problemas com nossa Saúde.
    Deveria ter sido Internado e Levado a Família e oque fosse preciso até o Andy.
    E o detalhe é que se trata de um Atleta de ponta que sempre está rodeado de Amigos , Patrocinadores, Organizadores do Evento e etc…
    Um Verdadeiro descuido com o ser Humano que acabou pagando com a Vida!

    Que Deus traga o Amparo necessário à sua Esposa e Familiares.

    # O Surf em seu Todo está de Luto #

  4. Gostaria de aproveitar as posições abordadas por Lohran, para reforçar um ponto que, como profissional da saúde, considero de extrema importância. Quando o autor compara o impacto da bicicleta x trator (penúltimo parágrafo), ele está correto e, gostaria de acrescentar que, depois que o tator (atleta extremamente saudável) desaba, segurá-lo, também é mais difícil, pois o problema está robustamente instalado. Em outras palavras: ser extremamente saudável também pode se configurar risco, se a vigilância não for adequada para esta modalidade de possível portador de doença. A todos os atletas, minha sugestão…comprometam-se com a sua saúde como atleta, assim como se comprometem com o Surf como profissionais.

  5. Muito boa matéria, Lohran.
    Faço apenas algumas observações que podem ampliar a pouca visibilidade que temos da coisa toda.
    A primeira e talvez mais relevante é: quem conheceu o Andy sabe o quão duro seria demovê-lo de uma decisão.
    Eu estava lá e sei que havia respaldo médico, oferecido pela ASP. Andy não quis saber e partiu.
    Não há vôo direto de PR para o Hawaii. Constatamos isso naquele mesmo dia.
    Essa aqui é pura especulação minha… Creio que, mesmo que a Billa mandasse um médico particular aompanhá-lo, ele não aceitaria. Um sujeito que deu mil voltas ao mundo, pegou as ondas mais encrencadas e foi tricampeão é teimoso como uma porta e tem aquele sentimento, sem o qual não se torna campeão, de que pode superar tudo.
    Quanto a toda gama de “drogas” envolvidas nessa história pesa a doença que o debilitava [assim como a Owen e Travis] associada a essa arteriosclerose grave que, talvez, nem ele soubesse que tinha. Sim, ele fazia tratamento para se livrar de drogas, mas isso meu caro, infelizmente, parece constar da vida nada normal de um superstar.
    Foi para festa em Miami? Duvido muito, usou drogas para se chapar? Duvido mais ainda. Ele queria era voltar para casa. O caso todo poderia ter outro final? Talvez, mas a responsabilidade me parece ter sido única e tão somente dele.

    Espero que a família fique bem e em paz depois que essa pesada poeira baixe.

    [ ]´s + (_ (__ (___ + PAZ > FUN
    EdiMilk

  6. […] também: O porquê da morte de Andy Irons […]


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