Publicado por: Lohran Anguera Lima | 17/02/2011

Susan Casey – A Onda

Trazido ao Brasil – em 2010, pela Editora Zahar –, o livro A Onda, da escritora e jornalista canadense Susan Casey, conquistou exposição, prestígio e fama bastante incomuns para uma obra a qual se encaixa na categoria “surf”. Seria todo esse alarde merecido? Seria uma produção admirável a tal ponto? Com o fito de responder essas questões, recorramos um pouco à prolixidade.

Já na capa, um adesivo vermelho, nada discreto, desperta o interesse: “BEST-SELLER. NY TIMES”. Entretanto, depois de folheadas as primeiras páginas, descubro haver algo muito mais surpreendente na capa: a imagem ilustrativa é de autoria do fotógrafo brasileiro Fred Pompermayer.

Um detalhe pouco analisado, mas de extrema relevância, é o modo como o conteúdo de um livro estrangeiro é traduzido. Traduções, sempre, destoam do original, principalmente em se tratando de textos jornalísticos como o da obra em questão; boas traduções surgem quando pouco destoantes são. A Onda conseguiu meus elogios nesse quesito: o texto continua dinâmico, perceptivelmente característico e pessoal, como se Susan Casey escrevesse em português.

A partir de agora, muitas críticas.

Primeiramente, com todo o respeito, o livro é mentiroso. Mentiroso na propaganda, visto prometer desvendar os mistérios acerca do surgimento das ondas aberrantes, mas nada disso realizar ao longo da obra. Mentiroso nas definições e nos critérios, visto o renomado cientista Johannes Gemmrich – apud Susan Casey – definir onda aberrante aquela com 4 vezes o tamanho das outras ao redor (página 88), enquanto a própria autora se contenta com, apenas, 2 vezes o tamanho das ondas ao redor para denominar alguma de aberrante (página 18). Perdoem-me os jornalistas emocionais e corporativistas, mas fico com a ciência.

Susan Casey já foi entrevistada pela Oprah (por ser editora-chefe do O, The Oprah Magazine?) e já teve uma outra obra nos best-sellers do NY Times (a única explicação por A Onda ter chegado lá também).

Na chamada do livro, a autora diz ter buscado quem mais entende de ondas grandes: marinheiros, surfistas e cientistas. Com relação ao primeiro dos três grupos, Susan Casey, basicamente, narrou histórias as quais ouviu de terceiros; qualidade mediana. Com relação ao segundo dos três grupos, a jornalista grudou em Laird Hamilton com o intuito de relatar as aventuras na busca por ondas gigantes; qualidade razoável. Com relação ao terceiro dos três grupos, a autora, sensatamente, reconheceu que pouco (ou nada) absorveu dos conhecimentos passados a ela pelos físicos e oceanógrafos; embora eu reconheça o esforço por ela ter buscado, enquanto jornalista, informações científicas, qualidade vergonhosa pelo conteúdo abjeto e desprezível – essa parte poderia ter sido descartada na propaganda do livro.

No que tange aos 7 comentários presentes no verso da obra, fique, somente, com o do NY Times; é o único verdadeiro deles. Os outros 6 parecem-me comentários de quem sequer leu A Onda, de quem foi pago para escrever algo que desse uma relevância a qual o livro não merece.

Sinceramente, se A Onda for um livro de surf, é para leigos e iniciantes (bem iniciantes). Evidências para isso me ocorrem aos montes. Eis uma: a autora faz questão de explicar conceitos elementares, como swell, strep, tow-in e “tomar uma vaca”. Espanta-me o fato de ela não ter explanado o que é parafina; ainda me pego inconformado acerca de como entendi o livro sem essa explicação. Devo ser genial.

A Onda, portanto, além de ser um livro fastidioso o qual não mantém nossas mãos dispostas a segurá-lo, nada acrescenta no conhecimento da causa. Assim sendo, recomendo a obra, apenas, pelo ato da leitura (o qual, sempre, engrandece), jamais pelo conteúdo trazido. Lamento.

Muito obrigado a todos,

Lohran Anguera Lima.

Susan Casey - A Onda. Foto: Fred Pompermayer.


Responses

  1. Nunca tive acesso ao livro mas, com certeza ja tinha ouvido falar. Após toda essa pesquisa, o que pode se concluir é que pelo menos esperta a autora foi, utilizando de contatos fortes para a divulgação do livro, como o Laird e a foto do Fred, que é um fenomeno! No mais, só lendo mesmo pra saber rs.

  2. Sai daí cara!

    Se ela é uma mentirosa, você é um tolo!

  3. Concordo com o autor da crítica. O livro só é “conhecido” no âmbito do sufe devido às inúmeras propagandas, divulgações e apoios com supedâneos dotados de inverdades. O livro ora referido é palpérrimo no que tange ao seu contéudo e ao seu escopo.
    Obs: Pude vislumbrar, que há um sujeito que realiza comentários acerca da crítica, porém o indivíduo sequer sabe ler, haja vista que o autor chama o livro de mentiroso, e não a autora do mesmo.

  4. Eu não me preocupo muito com os motivos com que uma onda grande se forma. Para mim, basta ela se formar onde deve ser formada e está tudo naturalmente justo e perfeito. O que me chama a atenção sim, é sua capacidade crítica e elegância harmônica na escrita. Nesta breve resenha, você Lohran, deu uma aula de elegância. Apreciei, especialmente o modo que encerra seu trabalho. Muito bom saber que há pessoas ligadas ao Surf que sabem se comunicar com maestria. Parabéns pela crítica

  5. Caro,
    Também admiro suas críticas, de fato muito pertinentes. Claro que quando lidamos com um tema como o surfe, tudo fica muito mais pessoal e navega no ambito das emoções. Assim sendo, o livro em questão certamente terá impactos diferentes em cada leitor.
    Eu li o livro, fiquei empolgado com as narrações tão proximas e detalhadas de momentos vividos por surfistas em ondas como Jaws, Mavs, Killers e outras, que para mim que moro em SP parecem-me tão distantes quanto impossíveis.
    Concordo que o objetivo cientifico proposto não foi atingido, mas ainda assim, para quem é apaixonado pelo surfe como eu, recomendo totalmente a leitura.
    Abraços

  6. Ainda não terminei de ler o livro, mas já estou decepcionado.
    As informações contidas no capitulo ” Diga Adeus” são no minimo equivocadas. Inclusive algumas estatisticas estão erradas. Basta entrar no site da IMO para verificar. Essa á fonte que ela diz ter usado.
    Na pagina 115 ela diz que ” o projeto dos navios precisava de mais de que uma pequena reformulação, precisava ser totalmente repensado” !!!!.
    Realmente houve uma mudança na estrutura dos graneleiros, mas não devido a essa ondas gigantescas….essa mudança tbm esta disponivel no site da IMO. Demais técnica para expor aqui.
    Qto a narrativa, pelo que percebi até agora, ela escreve um capitulo sobre ondas e um sobre surfe…e as narrativas dos capitulos sobre surfe são por demais maçantes…são duas ou três paginas para dizer que o cara chegou na praia com seu carro velho e pegou a prancha e foi surfar…
    Conheço um pouco sobre eng naval e muito pouco sobre geologia e ocenaografia, mas pelo que ela escreve sobre eng, acredito que os demais assuntos são tradados da mesma forma…portanto o livro não tem informações confiaveis

  7. Muito bom seu blog e sua critica ao book, melhor sua opinião. Esses tipos são na verdade, os clássicos aproveitadores da ONDA SURF. Parabéns mais uma vez e good job. Vou linkar vc ao meu blog se quiser retribuir, tanks

  8. Concordo com muito do que escreveu acerca da obra, Lohran, e ainda mais com o que falou sobre a publicidade em torno dela. O livro, definitivamente, não desvenda qualquer possível “segredo” sobre a formação de ondas gigantes, por motivos óbvios — se nem os cientistas são capazes de fazê-lo precisamente, é evidente que uma jornalista não conseguiria.

    Neste caso, certamente a propaganda fez com que o resultado se configurasse, em parte, um fracasso, uma vez que a autora não consegue atingir tal proposta.

    A questão é: se não houvesse essa propaganda (agressiva e mentirosa), estaríamos aqui discutindo o livro agora? Eu duvido. E também tenho lá minhas dúvidas se a autora, uma jornalista experiente e de incontestável capacidade, sente-se bem com tal estratégia. De qualquer forma, procuro sempre evitar ler sinopses, críticas e entrevistas antes de ler um livro. A razão está aí. A expectativa, ainda mais no que se refere a assuntos científicos ainda obscuros para os próprios cientistas, quase sempre estraga a leitura.

    Outra coisa é aquilo contido dentro das 300 e poucas páginas do livro em questão. O texto de Susan, em minha opinião, é tudo menos fastidioso. Ainda que não tenha testemunhado pessoalmente boa parte dos casos narrados, como você critica, creio que ainda assim é capaz de manter uma narrativa atraente e empolgante a quem procura conhecer mais do universo das ondas gigantes. Desculpe-me, mas soa, no mínimo, estranho um “especialista” procurar respostas num livro como esse.

    Tenho certeza de que Zakharov não faria o menor esforço para ler a obra para entender mais sobre o que chamamos de ondas. Isso não impede, por exemplo, que um leigo interessado no assunto sinta-se atraído pela complexidade inerente ao tema após ler o livro. Até porque nem o leigo, nem eu e, provavelmente, nem você conseguiríamos entender sequer as mais básicas fórmulas dos cientistas.

    Muitas críticas sobram após a leitura deste interessante livro, claro. Entretanto, o tom utilizado por você para definir a obra, este sim, é lamentável. Afinal, deixar-se enganar pela propaganda pode ser também um ato irresponsável.


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