Publicado por: Lohran Anguera Lima | 14/04/2011

Um lado negro do surf

Qual é o limite da capacidade física humana? E da mental? Aliás, há um limite? Até que ponto o ser humano é capaz de vencer seus medos em busca de dinheiro, reconhecimento, respeito e fama? Bill Sharp e a Billabong foram atrás dessas respostas; as famílias dos surfistas atrás dos atestados de óbito.

Essa história, logicamente, envolve muitos pontos de vista e diferentes desfechos para cada surfista, vários destes honrosos e, devidamente, comemorados. Entretanto, de modo algum podemos nos omitir do lado podre e necrótico que, recorrentemente, faz-se presente.

Tudo começou com Laird Hamilton, Buzzy Kerbox e Dave Kalama, em meados dos anos 1990, quando desenvolveram uma modalidade a qual revolucionaria o surf: o tow-in. A partir disso, mares e ondas até então impossíveis de serem surfados tiveram seu sossego e privacidade deturpados por máquinas barulhentas, movidas a gasolina, as quais colocavam qualquer surfista a rabiscar suas paredes virgens e intactas. Houve, então, uma enorme popularização do big surf, tanto o de tow-in quanto o de remada, sendo a busca por ondas gigantes o objetivo de vida de muitas almas obstinadas e tenazes.

Não muito tempo depois da criação do tow-in, Bill Sharp surgiu com uma brilhante, inédita, porém nefasta, ideia de testar os limites físicos e mentais – além da ganância por dinheiro, reconhecimento, respeito e fama – dos atletas ao oferecer uma quantia de 500 mil dólares a quem conseguisse surfar a talvez fictícia onda de cem pés. “500 mil dólares por uma única onda, oh my God!”. Bill Sharp um neonazista, visto testar os limites humanos? Não sejamos extremistas, longe disso; apenas um empresário visionário. Não demorou muito tempo – alguns dias – até a Billabong comprar a ideia. Inclusive um nome impactante foi concedido à pseudocompetição: o original Project Sea Monster (“Projeto Monstro Marinho”) seria rebatizado como Billabong XXL (reconhecem esta alcunha?).

Não é de se estranhar, portanto, que essa sequencia fatual tenha desencadeado uma corrida desenfreada por ondas mais estúpidas e grotescas do que as já conhecidas. Impreterivelmente, se há condições mais extremas, há maiores riscos de morte. E é o que se tem notado nos últimos anos: um crescente índice de óbito entre os praticantes do big surf, seja na remada, seja de tow-in.

Antes de o tow-in ser inventado, de o Billabong XXL premiar os surfistas mais insanos e de a mídia especializada publicar e noticiar os feitos honrosos do big surf, havia, logicamente sim, mortes no surf. Entretanto, indubitavelmente, encontramo-nos no pico dos desastres, no máximo que a frequência obituária já atingiu no esporte.

Não me refiro a Billabong e a Bill Sharp como únicos responsáveis pelos óbitos. Eles são, apenas, incentivadores, mesmo que involuntariamente. As outras marcas as quais patrocinam competições e atletas, ambos com foco no big surf, também não possuem reputação ilibada no que tange a esse assunto – sem mencionar a enorme parcela de culpa destinada aos próprios atletas. O que ocorre é uma relação diretamente proporcional entre incentivo das marcas e extrapolação dos limites pelos surfistas. Todos culpados.

Cabe-nos, assim, manifestarmos preocupação para com aqueles que fazem da sua vida um duelo diário com a morte. A maior delas que me cabe é a de que esse pico, ainda, não está em fase estacionária ou regressiva, mas crescente. E aos que fizerem parte desse pico, que sejam por ele levados lá para o alto, para o céu.

Muito obrigado a todos,

Lohran Anguera Lima.

Sion Milosky, uma das vítimas do big surf, e sua filha.


Responses

  1. “Todos culpados”…inclusive e talvez o maior, o público. Isto mesmo. Nós mesmos. Estes cidadãos que esperam ver super altetas fazendo coisas que mortais não fazem. Super Homens são imortais (P.S.: no pensamento mortal). Nós queremos que a façanha alheia nós mostre como o humano é capaz (capacidade esta, que nós mortais não temos mas queríamos ter). Então, quando a tragédia acontece e a família chora, nós mortais, arrepiados dizemos: ” Oh!Oh! Coitado. Enquanto a família chora, nós mudamos de canal e passamos a assistir a Copa do Brasil de Futebol. Também lá, queremos gols de bicicleta, entradas e saídas mirabolantes, tudo aquilo que não faço mas pago para que os outros façam. Pago até para alguém pagar 500 mil dólares, nem que morra. Nós público, somos assim. Agora, tenho que mudar de canal…Vou procurar um super homem.

  2. Essa reflexão realmente é importante. Mas lembremos que estamos em um mundo capitalista, além de ser da natureza humana a busca por reconhecimento, e por que não, por status… Quantos atletas não se arriscam pura e simplesmente para se “auto-afirmarem” perante um grupo ou sociedade? E quando há dinheiro envolvido (muito dinheiro, diga-se de passagem), além de todo o burburinho gerado com isso (fama, mulheres, badalação), poucos resistem à tentação.
    A grande questão é que, infelizmente, o surf perdeu sua essência para a maioria daqueles que o praticam. E a consequência é essa que assistimos, dia após dia…

  3. “lado podre e necrótico”? … alguém tá intertextualizando patologia…. :P

    legal o texto :)

  4. Ainda faltam umas quarenta páginas pra eu terminar A Onda, da Casey e fui caçar resenhas do livro na internet. Caí aqui. Como eu não sei o que é surfar, nem entendo a dinâmica da onda – nem mesmo com a muleta do livro – recorri ao Billabong Odissey, filme em que Bill Sharp promove a competição. Como a Susan Casey explica no livro, o prêmio de 500 mil dólares nunca foi pago. No filme, Mike Parsons aparece segurando um cheque de 60 mil, Casey afirma que o valor do prêmio tenha caído para 15 mil. Outro paralelo interessante entre o livro e o filme é que Hamilton não é mencionado no filme, enquanto que no livro Bill Sharp aparece como um arrogante perturbador da paz que já tomou um chega-pra-lá de um dos parceiros do Hamilton.


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