Publicado por: Lohran Anguera Lima | 07/07/2011

Quando CJ Hobgood foi ao centro médico

Leia também: Como funciona o centro médico do World Tour

Último dia do Billabong Rio Pro, etapa brasileira do WT 2011. Havíamos acabado de mandar o taitiano Michel Bourez ao hospital, imobilizado na maca e com colar cervical, depois de ele ter se lesionado durante a sua bateria contra o Mineirinho. Michel bateu a cabeça no fundo da Praia da Barra da Tijuca ao tentar retornar de um floater. Disse “havíamos”, pois, nesse dia, eu estava junto com o departamento médico da etapa. Nem duas horas depois, uma nova correria no centro médico: quem chegava necessitando de atendimento era o americano CJ Hobgood.

CJ Hobgood chegou acompanhado do irmão Damien Hobgood, da cunhada e de algumas pessoas que o ajudaram a chegar até lá. Enquanto eu entrava na sala, o médico Dr. Joel Steinman já posicionava CJ sentado em uma das macas. Fizemos um círculo em torno do americano. Ninguém sabia o que havia ocorrido, mas era o que todos queríamos saber. Todos os diálogos, a seguir, serão transcritos em português, entretanto, foram todos em inglês.

O Dr. Joel Steinman lhe perguntou qual era o seu nome, qual era a sua profissão e onde ele estava. CJ acertou todas as questões: “CJ Hobgood, surfista profissional, Rio de Janeiro”. Estava, entretanto, visivelmente, perturbado, desnorteado e confuso. Não sabia, ao certo, o que lhe havia acontecido, apenas que surfava em São Conrado até sentir um impacto na cabeça. O fato é que nem o próprio sabia, exatamente, o que ocorrera. Ora ele falava “Eu estava voltando ao outside, então dei um joelhinho para furar uma onda, senti uma pancada na cabeça e não me lembro de mais nada”; ora “Eu estava dentro de um tubo, a onda se fechou a minha frente; era muito grande e eu só pensava no que eu poderia fazer para não quebrar a minha prancha”. Quando perguntado sobre o que ele pensou após sentir o impacto na cabeça, CJ falou algo, totalmente, inesperado: “Eu só conseguia pensar ‘eu não quero ser um jogador de futebol, porque jogadores de futebol se machucam, e eu não quero me machucar’”. Pasmem! CJ, realmente, precisava de ajuda.

Jádson André entrou no centro médico para saber o que estava havendo com CJ. Nesse momento, CJ se voltou a mim e disse: “Ei! Eu me lembro de você!”. Respondi: “Sim, do boliche!” (Eu, CJ Hobgood, Damien Hobgood, Travis Hobgood e Tiago Garcia havíamos jogado boliche, juntos, alguns dias antes). CJ repetiu o que eu disse e me fez uma pergunta: “Eu fiz a menor pontuação?”. Respondi: “Não, Tiago fez a menor pontuação”. Ele: “É! Tiago!”. Damien achava a conversa um pouco engraçada, mas a preocupação com o irmão era maior. Após alguns minutos, CJ reafirmou que havia batido a cabeça enquanto furava uma onda. Pronto! O motivo do impacto estava elucidado. O fato é que o americano, após o acidente, teve um quadro de amnésia por quase 20 minutos. Enquanto o tempo passava, CJ conseguia recuperar flashes dos últimos dias e dos últimos acontecimentos. Entretanto, não conseguia se lembrar dos momentos que antecederam o acidente. O quiropraxista australiano Jason Gilbert entra na sala, então informo-o o motivo de toda aquela movimentação.

O ar condicionado do centro médico, se por um lado amenizava o calor carioca, por outro lado congelava CJ Hobgood. Desliguei o ar. Passamos calor, e CJ tremia. Mais recordações vinham à mente do americano, agora envolvendo Jádson André: “Ei, Jádson! Eu me lembro do seu tio!”. Jádson riu, e ficou por isso. CJ deitou na maca, foi despido das suas roupas molhadas e coberto com lençóis. Seu pescoço foi imobilizado com o colar cervical. Dr. Joel Steinman iniciou um exame de avaliação dos reflexos medulares do CJ, tentando identificar alguma possível lesão em algum nível medular. CJ estava com hiper-reflexia, ou seja, com os reflexos medulares exacerbados. Preocupante. Mais recordações: “Quem venceu? Mineiro ou Owen Wright?”. Jádson responde: “Mineiro está na final!”.

Diagnosticado com uma concussão cerebral, CJ seria encaminhado ao hospital para exames mais detalhados. Uma sensatez tomou conta do americano: “Alguém pega o meu seguro de saúde da ASP”. Outra pessoa, na sala, completou: “E um documento, pode ser o passaporte”. CJ Hobgood não tinha, naquela hora, alguém que soubesse falar em português e em inglês para acompanhá-lo e auxiliá-lo no hospital. Jádson, então, propôs-se a ajudar e, como consequência por estar no hospital, não pôde ver seu amigo Adriano de Souza, o Mineirinho, ser campeão do Billabong Rio Pro 2011. O importante é que cada um fez o que deveria: Mineiro dentro da água, e Jádson fora. Essa foi a preocupante, engraçada e inesquecível passagem de CJ Hobgood pelo centro médico do Billabong Rio Pro 2011.

*Muito obrigado ao amigo Tiago Garcia por disponibilizar o vídeo feito com CJ Hobgood, dois dias após o acidente, comentando o fato. Tiago,desculpe-me por expor a sua pontuação no boliche. Se quiser, aceito revanche. Abraços!

Muito obrigado a todos,

Lohran Anguera Lima.


Responses

  1. Poxa, ainda bem que o grande CJ está bem. Estou muito feliz e aliviada por saber disso!

  2. Parabéns pelo Post. Gosto de sua narrativa, me faz sentir na cena do crime. Espero que ainda esteja mandando bem no Boliche. Ao Tiago Garcia: sinto muito amigo, não adiantará revanche…sem chance.
    abç

  3. Não entendi. Ele não bateu a cabeça, não foi atropelado e ficou com amnésia?

  4. […] Leia também: Quando CJ Hobgood foi ao centro médico […]


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