Publicado por: Lohran Anguera Lima | 19/09/2011

Entrevista com Gary Linden

Esta entrevista foi publicada no Site Waves.

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Gary Linden, californiano de San Diego, é um distinto, carismático e sorridente senhor de 61 anos. Renomado shaper e criador do Big Wave World Tour (BWWT), o mundial de ondas grandes, começou a surfar aos 12 anos e, já aos 17, iniciava a sua própria marca de pranchas, a Linden Surfboards. Admirável profissional e louvável pessoa, Gary Linden falou, com exclusividade, ao Near The Ocean.

Muito obrigado a todos,

Lohran Anguera Lima.

Gary Linden em Todos os Santos, México, 2010. Foto: arquivo pessoal Gary Linden.

Primeiramente, Gary, é uma honra e um prazer imenso tê-lo aqui sentado ao meu lado. E eu já gostaria de saber de onde vem esse seu português impecável.

Muito obrigado! O prazer é meu! Eu fiz uma viagem, partindo das Ilhas Canárias e chegando até Recife, em um iate de 10 metros. Gostei tanto do Brasil que resolvi passar seis meses em Saquarema. Como em Saquarema ninguém falava em inglês, tive que aprender (risos).

Conte-nos como surgiu a sua paixão por ondas grandes.

Eu sempre esperava a maior onda quando ia surfar. Eu nunca ficava no inside surfando muitas ondas, sempre queria a maior. Isso foi acontecendo aos poucos, até que eu cheguei em Waimea. A partir daí, não parei mais.

Você é shaper há 45 anos e fabrica pranchas para o mundo todo, o que demonstra muita paixão pela plaina. Mas, afinal, você prefere fazer prancha ou pegar onda grande?

Pegar onda grande, sem dúvida. Na verdade, eu comecei a fazer pranchas para ter uma prancha boa, uma prancha diferente. Fiz uma das primeiras pranchinhas da Califórnia, na época em que estávamos na transição do pranchão para a pranchinha. Isso aconteceu porque eu e meus amigos queríamos fazer um surf mais moderno. A mentalidade era: estou fazendo prancha para surfar melhor. Além disso, eu mesmo testo as pranchas que faço. Os caras os quais surfam com as minhas pranchas sabem que eu tenho arriscado a minha vida testando-as, antes de eles arriscarem as deles.

Atualmente, na sua opinião, qual é o melhor big-rider?

Não consigo dizer só uma pessoa, mesmo porque, como tenho o BWWT, alguém pode se sentir chateado. Gosto muito do Mark Healey, Greg Long, Grant Twiggy Baker, Carlos Burle, Jamie Sterling, Danilo Couto, Gabriel Villarán, Ramon Navarro, Shane Dorian, Ian Walsh, Peter Mel e Kelly Slater. Kelly Slater é muito bom em onda grande. Existem tantos surfistas bons, cada um tem o seu dia. Todos esses têm capacidade de ganhar.

Entendo, não tem como dizer um especificamente.

Ah… É muito difícil. Tá, a minha preferência é pelo Mark Healey (risos). Mas não é porque ele é o melhor, é porque eu gosto muito do estilo dele. Ele não pensa muito para entrar na onda. Acaba tomando uns caldos loucos, e eu gosto disso (mais risos).

Em 2011, devido à falta de ondas, apenas 3 das 5 etapas do BWWT aconteceram. Isso não tira um pouco do brilho do circuito?

Não, acho que é o contrário. Se sempre estivesse com 20 pés, não seria algo especial. Como o Eddie Aikau, por exemplo, em 25 anos só aconteceram oito vezes. Havíamos programado 5 etapas, aconteceram 3, ou seja, 60%. Se isso é suficiente para fazermos um campeão mundial, está ótimo. Claro que a gente se programa para que todos os eventos aconteçam, mas nem sempre isso ocorre. No primeiro ano do BWWT, por ser ano de El Niño, todas as etapas aconteceram, já 2011 foi ano de La Niña. E essa expectativa da incerteza se o evento vai acontecer faz parte do clima que envolve o surf de ondas grandes. Isso é bonito, muito bonito!

Todas as etapas do Big Wave World Tour de 2011 estavam previstas para ocorrer no continente americano. Por que não realizar um evento em outros continentes como na África (em Dungeons) ou na Europa (em Mullaghmore Head)?

Realmente. Em Dungeons, na África do Sul, foi o lugar onde nós aprendemos a fazer o circuito. Os métodos, o equipamento, a logística, enfim, tudo foi testado lá. Por dez anos tivemos um campeonato em Dungeons, mas a Red Bull, que era a patrocinadora, resolveu parar com o evento (Red Bull Big Wave Africa). Daqui um mês, talvez vou ter boas notícias sobre isso, pois estamos com planos de ter um evento em Dungeons no calendário do BWWT. Mas em outros lugares, como Irlanda, só no futuro. Lá não existe estrutura para se realizar um campeonato. Por exemplo, neste ano inserimos Newscott Reef, no Oregon, ao BWWT. Foi um teste, pois o swell era de 25 pés, e só para passar pela arrebentação nós perdemos seis jet-skis em apenas um dia. Então, temos que fazer um experimento antes de dizer que podemos realizar um campeonato do circuito em determinado lugar. Tem toda uma logística envolvida. Além disso, temos que buscar os lugares mais tradicionais de ondas grandes, lugares onde já houve algum campeonato, por exemplo.

E quais são as perspectivas e os planos do BWWT para 2012 e para os próximos anos?

Primeiro nós fizemos um circuito, agora que já o temos, é hora de crescer. Teremos um tour de qualificação para o tour principal. Queremos inserir a Austrália e a Europa no calendário. Vamos colocar as mulheres para competir já neste ano. Além disso, temos planos de colocar Jaws já na próxima temporada do BWWT (2011-2012)!

Gary, o mundo do surf ficou chocado com o recente falecimento de Sion Milosky. Você, como incentivador do surf de ondas grandes, sente alguma parcela de responsabilidade pelo ocorrido?

Não mais do que qualquer outra pessoa. Quem pega onda grande, pega por si mesmo. Não o faz por fama ou por dinheiro, faz pela adrenalina e pela satisfação do momento. Sion estava surfando fazia oito horas, havia pegado seis ondas de 50 pés. Ele estava se sentindo como o rei do mundo quando foi para a sua última onda. Se tivesse um campeonato naquele dia, nós teríamos jet-ski, salva-vidas, helicóptero, hospital, tudo preparado. Mas, como ele estava num free-surf, não teve como resgatá-lo. Então, o circuito facilita os atletas a surfarem com segurança. Esse é o meu sonho. Neste ano, principalmente por causa da morte dele, a gente aumentou a segurança dentro da água durante os campeonatos. Acho que o que pode ser responsável por essas fatalidades é aquele tipo de campeonato que é só uma foto ou um vídeo. O surfista vai apenas com um fotógrafo em um lugar sem qualquer segurança ou auxílio de resgate.

Eu gostaria de saber a sua opinião sobre o seu amigo Carlos Burle e sobre a Maya Gabeira.

A Maya Gabeira compete muito bem, é bonita e atrai a mídia. Junto com o Carlos Burle, forma uma dupla ideal para o tow-in, além de ela ser muito boa na remada também. O Carlos Burle é um grande amigo meu e é o rei de tudo. Nota 10. Ele representa muito bem o esporte e me deu muita alegria o fato de ele ter sido o primeiro campeão mundial de ondas grandes. Ele é um embaixador da nossa causa, do surf de ondas grandes e da segurança dentro da água. Eu sempre penso nele como um sócio. Ligo perguntando uma opinião, ele sempre me liga para me informar de algo. Sempre trocamos ideia, isso é muito legal!

Vamos buscar algumas coisas na sua memória, Gary. Qual foi o seu pior caldo?

Essa é fácil. Foi um dia em Pasquales, no México. É um beach-break como Puerto Escondido, mas é mais pesado. Eu estava julgando o campeonato nacional do México. Estava tão grande em frente a minha casa que eu tive de ir surfar em uma outra praia mais calma. Voltamos à tarde, e eu avistei uma direita rodando. Não havia ninguém na água. Não me aguentei, peguei a minha prancha e entrei. Estava ensolarado. Remei para a onda, entrei nela, consegui dropar e logo pensei “fiz a onda, show!”. Enquanto eu ainda dropava com os braços erguidos, o lip da onda acertou meu braço direito, o qual acabou acertando a minha cabeça. A minha cabeça bateu com força no meu ombro esquerdo. Desmaiei embaixo da água, não 100%, mas eu pensava “olha, está escuro aqui, que paz que estou sentindo, deve ser fundo aqui”. Finalmente subi para a superfície. Fui em direção à praia e, enquanto eu caminhava pela areia, desmaiei totalmente na frente de todas as pessoas do campeonato. Meus amigos me pegaram e deu tudo certo.

E a sua melhor onda, qual foi?

Tem várias, mas a maior foi em Todos os Santos, no México. Tinha, aproximadamente, 50 pés e eu estava com uma prancha 10’6’’ gorda, grossa e feita de madeira balsa. Fui com a Billabong para gravar o filme Odissey. Eu estava com 52 anos e decidi remar. Vi uma onda lá fora, onde eu nunca havia visto uma onda quebrar. Eu estava na posição certa. Remei, dropei e fiz a onda na frente de todos os meus amigos. Fiquei vice-campeão do Billabong XXL com essa onda. Teve outra onda, dessa vez em Dungeons, África do Sul. Eu estava com 55 anos e com a mesma prancha 10’6’’. Só havia mais meia hora de luz, tempo para duas séries. A primeira série me varreu para o inside. Na segunda, veio uma onda perfeita, formando um triângulo. Dropei, fui para a direita e consegui fazer a onda. Todos os meus amigos estavam lá gritando o meu nome e vibrando! Fiquei muito feliz! Essas foram as duas ondas que mais me marcaram.

Gary, foi um prazer enorme sentar-me ao seu lado para conversarmos. Muito obrigado pela atenção e pela disponibilidade. Gostaria de desejar imenso sucesso ao BWWT e a Linden Surfboards. Sinta-se à vontade para mandar o seu recado.

O importante é a alegria. Temos que passar a nossa alegria e as nossas vibrações positivas a tudo que fazemos e a todas as pessoas que encontramos. Essa é a essência do surf! Tudo que eu tenho de bom é devido aos meus pais e ao surf. O que eu quero é passar isso adiante! Um abraço a todos e muito obrigado!

Linden Surfboards. Foto: arquivo pessoal Gary Linden.


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