Publicado por: Lohran Anguera Lima | 09/10/2011

Teoria da Inflação das Manobras

Primeiramente, gostaria de evidenciar a minha consciência de que as hipóteses e as opiniões, aqui, expostas e fundamentadas, poderão, não com dificuldade, causar justo desagrado e desconforto a algum leitor. Vamos ao caso.

Situação: Hurley Pro Trestles 2011. Round 2. Jadson André (BRA) x Dusty Payne (HAW). Jadson estava com um 8.17 e um 9.43 (somatório: 17.60), enquanto o já entregue Dusty Payne havia conseguido um 6.17 e um 6.93 (somatório: 13.10) com as suas duas melhores notas. Se você, leitor, é um hábil matemático, já pôde perceber que o havaiano estava em combinação, ou seja, nem mesmo se ele tirasse uma nota 10 seria possível vencer o brasileiro. Uma pausa, aqui, com o fito de evidenciar um detalhe imprescindível: para Jadson conseguir essas suas duas notas, teve de usar, em ambas, talvez a sua mais eficaz arma, o aéreo rodando. Vamos em frente. Faltavam incríveis 25 segundos para a bateria terminar, e eis que a última série surge no outside. Jádson entra na primeira onda, Dusty na segunda. 25 segundos restantes, Dusty em combinação. O brasileiro, agora dominado por um instinto selvagem pré-civilizatório, não se controla, arrebenta a onda toda, e consegue um 8.37 após desferir mais dois aéreos rodando. Dusty não conseguiu aumentar a sua nota (fez um 6.13). Fim da história: Jadson André (17.80) x Dusty Payne (13.10). Jadson está no round 3.

Caro leitor, não permita que a indignação tome conta, unicamente, da minha pessoa. Deixe-a inundar os seus pensamentos também. QUAL É O OBJETIVO DE USAR DOIS AÉREOS RODANDO, FALTANDO 25 SEGUNDOS, COM O OPONENTE EM COMBINAÇÃO? Sinceramente, para que gastar dois aéreos rodando em uma bateria já vencida? Para que cansar a visão dos juízes com mais dois aéreos rodando idênticos aos dois anteriores? Por que repetir tanto a mesma manobra em uma situação desnecessária e supérflua? Por que inflacionar as manobras? E mais: gastar dois aéreos rodando para aumentar um 8.17 para um 8.37. Chega a ser ridículo. Segue o pensamento – um tanto óbvio – dos juízes: “Oras, mas esse Jadson só sabe fazer esse mesmo aéreo? Só sabe essa mesma manobra? Não faz outro aéreo?”. E é aqui que mora o problema.

Quando o Jadson necessita de uma nota em uma situação emergencial, apela para o aéreo rodando. Ótimo! Corretíssimo! Visto ele pouco errar essa manobra, vai acertá-la, e os juízes vão pontuar bem a onda. Maravilha. Seria o ideal. Entretanto, se o Jadson continuar a gastar aéreos rodando em situações fúteis, como a supracitada, os juízes ficarão saturados da mesma manobra sempre. Quando Jadson precisar que os juízes deem uma nota boa por um aéreo rodando no final de uma bateria disputada, eles não soltarão a nota (“Oras, é o mesmo aéreo toda hora, ele não sabe outro aéreo?”).

Poderiam alguns pensar: “Um aéreo bem executado é sempre uma boa manobra, portanto merecedora de uma boa nota”. Inclusive, essas são palavras de um renomado jornalista especializado em surf, e amigo meu. Eu concordo: aéreo bem executado deveria ser sinônimo de uma boa nota. Em contrapartida, sabemos, de longa data, que o julgamento no surf não é imparcial e objetivo dessa maneira. Assim, corroboro: para que abusar da paciência dos juízes? Não brinque com algo que lhe pode trazer sérias consequências, Jadson. Não se arrisque a ficar queimado ou marcado com os juízes só pelo prazer de arregaçar a última onda de uma bateria já vencida. Ou ninguém se recorda das duras críticas que o Jadson recebeu por ter vencido o Billabong Santa Catarina Pro 2010 (etapa brasileira do World Tour) com, praticamente, a mesma manobra: o tal do aéreo rodando. Ou ninguém mais se lembra do Hurley US Open of Surfing 2010, em que o Jadson mandava insanos aéreos rodando para receber míseros 4 pontos (pasmem!). Isso nada mais é do que a perfeita ilustração da Teoria da Inflação das Manobras.

Deve estar você, leitor, pensando: “Então os juízes estão certos?”. Logicamente, não. Os juízes estão, de fato, errados ao pontuar um aéreo rodando com irrisórios 4 pontos. Jadson, nesse evento em 2010, precisava de nota, por isso tentou a sua manobra-chave. Fez o que deveria ter feito, porém não obteve um retorno à altura. Não é nesse ponto que eu critico o brasileiro. A minha crítica é a seguinte: já que os juízes são tão instáveis e temperamentais nesse quesito, Jadson deveria se resguardar, não tentar lutar sozinho contra um exército inteiro. Quem tem a perder é o atleta, não os juízes.

Detalhe: se o Jadson precisar realizar 100 aéreos rodando para vencer uma bateria, sou, totalmente, a favor, pois o objetivo deve ser, sempre, o de passar baterias. Em contrapartida, sou, inteiramente, contra ele efetuar 1 único e inocente aéreo rodando quando desnecessário.

A Teoria da Inflação das Manobras, então, defende que, assim como um livro muito folheado ou uma música muitas vezes escutada, as manobras também se tornam gastas com o seu uso desenfreado. O uso desvairado, incoerente, abusivo e repetitivo de certas manobras, portanto, torna-as algo de valor subestimado. Sinto muito que seja essa a realidade. Espero que o Jadson saiba lidar bem com isso futuramente.

Muito obrigado a todos,

Lohran Anguera Lima.

Teoria da Inflação das Manobras. Fotos: Rowland.


Responses

  1. De acordo. Um bom repertório de manobras, constrói uma base sólida rumo ao topo, umas vez que voce consegue se adaptar às adversidades nos mares de cada dia.

  2. É isto mesmo Lohran. Percebo que os juízes estão corretos em pontuar cada vez menos as manobras cada vez mais vulgares. Isto é um incentivo para que se crie o “novo”. Enquanto isto, cabe a cada um preservar o “golpe fatal” para que seja sempre letal.

  3. Radical!
    \,,,/


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