Publicado por: Lohran Anguera Lima | 14/11/2011

Regra Número 1 – Escola de não super-heróis

Era um final de tarde no posto 5, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. As séries de 6 pés (2 metros) explodiam na bancada enquanto poucas pessoas caminhavam pela areia, e outras raras surfavam. Havia muita correnteza e demasiado vento, sem mencionar o fato de as ondas fecharem constantemente. No horizonte, concomitantemente ao avistar alguém pegando onda de kite, admiro a enorme série que se levanta ao fundo. O kite-surfista veleja em direção oposta à praia na tentativa de não ser pego pelas montanhas de água as quais marcham em sua direção. Aflito, apenas observei. Torcia pelo sucesso do rapaz.

A torcida fora em vão, a preocupação se tornou evidente, e o pior aconteceu: o kite-surfista foi atingido pela série de quatro ondas. Perdeu seu contato com o kite e com a sua prancha, a qual, varrida pela espuma, rumava à areia. Por um instante, não mais pude ver a pessoa dentro da água. Olhei em volta: apenas um garotinho e uma mulher se aproximavam, mais ninguém por perto. Tornei a olhar para o mar em busca do ser; lá estava ele acenando em pedido de ajuda. A uns 500 metros dali, havia um jet-ski sendo pilotado por dois salva-vidas, porém ambos destinavam seus olhares a qualquer outra direção que não à nossa.

Senti-me amarrado por cinco segundos enquanto a Regra Número 1 ecoava na minha mente: “Não coloque sua vida em risco se não estiver certo de que é uma situação para a qual você está preparado”. Eu jamais poderia entrar naquele mar nas condições em que me encontrava, isto é, sem prancha, sem colete de flutuação, sem qualquer pessoa para me auxiliar no resgate ou para prezar pela minha vida. Isso também não significa que, se eu tivesse apenas uma prancha, entraria. Provavelmente ainda não. Seria algo a ser decidido na hora, de acordo com as minhas possibilidades. Atônito, acionei o garotinho, pessoa mais próxima dos salva-vidas, em busca da ajuda dos mesmos. Se o kite-surfista chegasse perto da areia o suficiente para eu me sentir seguro, eu poderia, quem sabe, resgatá-lo caso necessário.

O garotinho não conseguia chamar o jet-ski dos salva-vidas. E eu não podia perder de vista o rapaz. Muito sufoco dentro do mar, uma luta incessante pela vida. O cansaço gritava, bradava, clamava de dentro da água, podendo ser ouvido da areia. Ondas e mais ondas tratavam um humano como um desprezível ser. Pisoteavam-no impiedosamente, mas o desprezível ser lutava bravamente, parecendo supremo em várias ocasiões. O resultado ainda era uma incógnita: será dragado ou sobreviverá? “Sobrevive, cara! Vamos!”. Eis que seu braço é, novamente, erguido em direção ao céu, porém agora em pedido de espera. O assombro parecia passar, e ele já podia tocar o fundo do mar com os pés. Fico mais calmo, entretanto não menos atento aos seus movimentos, visto que o desgaste provocado pela mais violenta e intensa luta da sua vida dificultavam sua caminhada. Veio, vagarosamente, em direção à porção da areia onde não mais contato teria com qualquer gota, pingo ou resquício de água. Ele conseguiu! Sobreviveu! Suas primeiras palavras: “Amo tanto esse esporte que recomendo a todos, mas não nessas condições”.

Caro leitor, eu não possuo vocação para ser super-herói. Caso você possua, sinto muito. A ideia sobre a qual devemos refletir é: como colocar sua vida em risco na tentativa de salvar a do outro, se você nem conseguirá dar conta de salvar a sua própria? Não faz sentido! Há situações em que podemos ajudar (ótimo!), entretanto há aquelas em que é melhor não fazermos nada, pois poderemos complicá-las. Se eu tivesse entrado naquele mar, seriam duas pessoas precisando ser salvas, não mais apenas uma. E história de surfista o qual morreu, na tentativa de resgatar outro, ocorre-me aos montes aqui. Tony Villela, do Guarujá, e Eddie Aikau, do Hawaii, são, apenas, dois dos mais conhecidos exemplos.

É uma questão de responsabilidade, autoconhecimento e inteligência. A Regra Número 1 traz com clareza isso. “Não coloque sua vida em risco se não estiver certo de que é uma situação para a qual você está preparado”. Entendo, leitor, que não atuar em situações nas quais a tragédia se concretizou pode, por vezes, acarretar inconformação e problemas com a consciência, mas nunca acarretará problemas para a continuidade da sua vida. Isso pode ter um tom pouco afetuoso e desleixado para com o próximo, mas, de certa forma, não é justo, nem mesmo correto, você pagar com a sua vida o risco assumido pelo surfista ao entrar no mar em condições inadequadas e inapropriadas. Reflita, pense e converse sobre o assunto. Talvez seja uma reflexão conflituosa, porém certamente é rica e necessária. Perceba se você tem vocação para ser super-herói. Pois eu não tenho.

Muito obrigado a todos,

Lohran Anguera Lima.


Responses

  1. Bem bacana o artigo.
    Lembro-me de um dia no costao da Joaquina quando um turista aventureiro e irresponsavel, por estar em local que nao deveria, foi pego por uma onda e ficou se debatendo nas pedras, o mar estava de ressaca e o lugar onde ele caira era sinistro. Os salva vidas foram acionados e chegaram rapidamente, 2 deles. Mas nao efetuaram o resgate, somente jogaram um flutuador para a vitima e gritavam para ele se acalmar e ser forte. Algumas pessoas gritavam com os salva vidas chingando-os de medrosos. Outras pessoas, incluindo eu, tentavamos acalmar a gritaria. Finalmente o helicoptero chegou, e com auxilio deste foi efetuado o resgate. Realmente, daquele buraco ali ninguem saia na remada. Nao adianta “querer” ser super heroi, pois na hora da verdade o mar mostra que super heroi so mesmo no cinema e nos quadrinhos.
    Aloha
    boas ondas

  2. Eu poderia até fazer uma piadinha deste contexto mas é um assunto muito sério para ser tratado com humor negro. Esta idéia é válida tanto para o suporte básico como para o suporte avançado de vida, ou seja, o dito aqui, não é apenas regra para o surf ou kite-surf, é válido de modo geral. Vale para o mar como vale para a casa pegando fogo, a encosta desmoronando, o automóvel atravessado na pista ou um enxame de abelhas atacando o pescador. Ser socorrista está muito além de ser herói. Ser herói está muito além de ser socorrista. Lembrem-se que os heróis só são reconhecidos como heróis após sua morte.
    Parabéns Lohran pela mensagem.

  3. Very good post thanks a lot for sharing with us.


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