Publicado por: Lohran Anguera Lima | 26/12/2011

Teste antidoping no World Tour, uma lei para inglês ver

Este artigo recebeu destaque no Site Waves.

Leia também: O porquê da morte de Andy Irons

Teste antidoping no World Tour. Arte: Fábio Perroni.

A ASP (Association of Surfing Professionals), recentemente, divulgou, para o desalento e desespero de muitos atletas, a implementação do “ASP drug test” (teste antidoping) como prática obrigatória já para o ano de 2012 provavelmente. Projeto defendido pela SIMA (Surf Industry Manufacturers Association) e apoiado por Randy Rarick, o teste antidoping tender-se-á a ser aplicado sob as regulamentações do WADA (World Anti-Doping Agency), porém nada confirmado. Diversas, ainda, são as dúvidas acerca de como isso funcionará. Acredito que nem mesmo os idealizadores do tal teste sabem, ao certo, por onde caminhar. Algo que, aparentemente, mostra-se um passo correto em direção ao profissionalismo, pode, na verdade, ser mais uma das inúmeras atitudes egoístas e frustradas da ASP.

Dentre tantos questionamentos e dúvidas, alguns pontos mostram-se irrefutáveis, por exemplo: a morte de Andy Irons como sendo o estopim para a criação do “ASP drug test”. Embora muito se tenha defendido de que não há relação entre a morte de Andy e a implementação do antidoping, é óbvio que a colossal repercussão da morte do tricampeão mundial – por overdose de drogas e medicamentos – foi de relevância incomensurável para o lançamento do projeto em questão. Ponto indiscutível.

Entretanto, o que me preocupa, de fato, é como será a aplicação desse teste pela ASP. Eu não confio numa instituição a qual, publicamente, diz não ter conhecimento dos problemas de Andy Irons com as drogas. Pasmem! Qualquer um sabia, antes mesmo de Andy falecer, da dependência química do atleta em relação aos mais variados tipos de drogas. Imagine então, caro leitor, qual é a possibilidade de a ASP, a qual convivia diariamente (durante quase o ano todo) com o havaiano não saber desse problema? Eu respondo: zero! Qual, então, caríssimo leitor, é a possibilidade de a ASP tentar mascarar muitos dos verdadeiros resultados positivos dos antidopings? Eu respondo novamente: enorme!

Mas mascarar? Com qual objetivo? Primeiramente, é necessário compreendermos que a atitude de iniciar um teste antidoping a partir de 2012 não significa uma preocupação com os atletas ou com a saúde deles. É uma decisão a qual visa a, apenas, melhorar a imagem da ASP. Essa é uma instituição com inúmeros problemas, sendo taxada de falida por quase todos os entendidos do meio. Portanto, ela necessita tomar decisões com o fito de reverter esse cenário negativo a qual ela própria esculpiu, ao longo dos anos, em torno de si. Assim sendo, temos consciência de que esse teste, de forma alguma, trará prejuízos à ASP. Logo, quando surfistas renomados e campeões mundiais forem pegos no exame antidoping, é fato que eles não serão excluídos do World Tour. A ASP, em hipótese alguma, preferirá perder seus grandes atletas em nome da justiça num teste antidoping. Grandes atletas? Logicamente, sim. Quem convive nos bastidores do circuito mundial sabe da existência de drogas e de doping entre muitos dos grandes. Não tenho dúvida de que ela deixará muitos resultados positivos no desconhecimento ou de que os mascararão muitos desses. Não faz sentido expulsar do World Tour dez atletas de peso e, consequentemente, enfraquecer a audiência, a popularidade e as performances do próprio circuito. Não para a ASP, pois o pensamento dela não é projetado para obter efeitos a longo prazo, não reside na imagem do surf para daqui 5 anos, e, sim, na imagem imediata da instituição. Caso alguém possuía alguma dúvida, que agora esteja claro o quão patética e falida é a ASP.

Afinal, eu sou contra ou a favor do antidoping? Sou a favor, obviamente! Quero mais é que os dopados e drogados do World Tour sejam excluídos. Quero ver quem compete ilicitamente dando suas vagas para quem compete licitamente. Mas eu sei que isso não ocorrerá, pois a ASP não aceitará grandes perdas por causa de drogas ou doping. Se for para defender a saúde dos atletas e uma boa imagem do surf em detrimento da ASP e do World Tour, sou o primeiro a levantar a bandeira. O surf de competição não acabará se houver a extinção da ASP e do atual World Tour. Muito pelo contrário: só tem a crescer com isso. Mas não adianta sonharmos, haja vista que isso não acontecerá, infelizmente. A ASP não aceitará falir por causa de teste antidoping algum.

Desejo, sinceramente, que daqui um ano alguém pegue este texto e fale: “esse autor estava, completamente, enganado e errado com relação ao teste antidoping da ASP”. Pois eu desafio você, leitor, a prestar atenção em quantos – e, principalmente, quais – serão os atletas excluídos do World Tour por uso de substâncias ilícitas. Talvez uns dois ou três, mas jamais um dos grandes.

Muito obrigado a todos,

Lohran Anguera Lima.


Responses

  1. interessante o artigo Lohran,

    agora ficamos na espera pra saber como vai ser esse anti-doping, pois podes (infelizmente) estar completamente correto em relaçao ao teste.

    Veremos..

    E como alguns gringos estavam comentando pela webland: sera que os chefes, gerentes, CEO’s das grandes marcas vao ter que fazer esse mesmo teste??

  2. Quando o Comitê Olímpico Internacional (COI) instituiu o exame antidoping aos competidores para a Olimpíada de Munique em 1972, muitas dúvidas pairaram. O processo iniciado naquele tempo está em evolução até nossos dias e muitos “coisas estranhas” ainda pairam. Mas o que é fato: se ninguém ousar subir o primeiro degrau, a escadaria jamais será vencida. Espero que a ASP saia à frente nesta corrida mediada pelos equívocos do COI (WADA) e que no futuro, nada mais paire…

  3. Parabéns pelo artigo. Não há nada a acrescentar ou retirar do seu texto. Completo. Não mais que a verdade.
    Rodrigo Ponte Ildefonso

  4. “Primeiramente, é necessário compreendermos que a atitude de iniciar um teste antidoping a partir de 2012 não significa uma preocupação com os atletas ou com a saúde deles”. Como você pode dizer isso?? Você sabe o que passa na cabeça dos dirigentes da ASP?
    “Sendo taxada de falida (a ASP) por quase todos os entendidos do meio.” Pode dar alguns exemplos? Quase todos! Mais que a maioria dos entendidos. Você tem números?
    “Quem convive nos bastidores do circuito mundial sabe da existência de drogas e de doping entre muitos dos grandes”. Quanta abstração nessa frase! Pode ser mais objetivo e dizer QUEM convive e QUAIS são os grandes?
    “Caso alguém possuía alguma dúvida, que agora esteja claro o quão patética e falida é a ASP” Patética? Falida? Os últimos anos tivemos muitos dos melhores campeonatos da história. Performances que mudaram o rumo do esporte. Manobras que ditaram novas tendências. Uma participação milionária de empresas ligadas ao surf. Milhões de fãs e internautas acompanhando ao vivo as etapas.
    Teu texto meu caro é que beira o patético e irresponsável. Parece aquelas denúncias bombásticas das revistas semanais brasileiras que desesperadas por vendas e publicidade levantam suspeitas e o fazem através de asserções subjetivas e superficiais.

    • Fervoroso leitor Daniel,

      Fico bastante grato que tenha reservado um tempo para ler o artigo.
      Como sempre, agradeço, também, as críticas tecidas, embora, neste caso, dotadas de ignorância.
      Infelizmente, não posso responder todos os seus questionamentos, como citar “nomes dos grandes”, pois isso não cabe a mim. Se um dia, quem sabe, você fizer parte do meio e vier a conviver nos bastidores do esporte, saberá responder todas as suas perguntas. Ou melhor, não mais as faria. Até lá, questione, reflita, abra uma revista de surf por mês ou um site especializado por semana. Isso o ajudará a ser menos incompetente nos questionamentos e menos insultuoso nas palavras.

      Obrigado.

      Lohran Anguera Lima
      Near The Ocean
      http://www.neartheocean.wordpress.com

      • Se você se propõe a escrever um texto desse tipo e supostamente revelar grandes coisas que poucos sabem, então deveria iluminar os ignorantes como eu e trazer a verdade à tona. Isso é o pressuposto mais básico de quem acusa alguém e quer denunciar algum complô. Se você não pode responder, então seu texto não tem valor jornalístico algum, apenas insinuações amadoras pretensiosas.
        “Até lá, questione, reflita, abra uma revista de surf por mês ou um site especializado por semana.” Você nem tem idéia do quanto eu entendo de surf e acompanho os atletas brasileiros, conheço pessoalmente alguns deles inclusive.
        Se meus questionamentos foram incompetentes, você foi mais ainda, pois não foi capaz de responder nehum deles.

      • Que me desculpe o Daniel, mas gostaria de parabenizar o Lohran, pois na minha opinião este é um dos artigos mais corajosos e lúcidos que já li sobre o assunto…tocou realmente na ferida…chega de hipocrisia, né…afinal, até quando a ditadura da imagem e do marketing vai prevalecer sobre a ética e a verdade?????

  5. Concordo totalmente com o texto, e portanto discordo frontalmente do comentário do sr. Daniel. Cara, basta vc observar que o Neco foi o único a ser punido até hj, com a desclassificação por um ano – o que obviamente foi um exagero. Pelo que eu sei o que ele tomou nem era anabolizante e sim medicação para a dor nas costas que ele estava passando devido à hérnia de disco – e que tem isso sabe como é essa dor. Por que será? Vejamos, um brasileiro que naquela época estava quebrando, subindo no ranking . . . Será tão difícil imaginar? E o Occy??? O cara foi pego na praia pela polícia e nada aconteceu?! Mas com um brasileiro aí sim não é mesmo senhor Daniel.
    Só espero que nao se repita agora essa evidente discriminação com os brasileiros, apesar que eu acho que nenhum deles está envovido com drogas.

    E outra, a ASP é sim uma instituição patética, levando-se em consideração a gafe cometida quanto ao título do Kelly, foi a coisa mais ridícula e patética jamais vista na história dos esportes.

    E o que foi aquela tosca justificativa oficial dada pela vitória do mineiro contra o queridinho australiano no rio??? Isso foi ainda mais patético, se é que é possível imaginar isso. Porque não justificaram a vitória do Kelly com aquele floater de 9 m em imbituba (em uma onda muito menor que a do mineiro no rio) contra as pauladas do mineiro???

    abs aloha!

  6. “apesar que eu acho que nenhum deles está envovido com drogas.” Então nem tem o que temer para o nosso lado. Eu também acho que nenhum brasileiro na elite usa drogas, daí para que toda essa preocupação?
    “a gafe cometida quanto ao título do Kelly, foi a coisa mais ridícula e patética jamais vista na história dos esportes.” Um gafe não desmerece um trabalho sério desenvolvido ao longo de mais de duas décadas. Onde há pessoas há erros mas é muito fácil condenar os outros que estão seriamente comprometidos em construir algo quando erram. Alías, criticar é a coisa mais fácil que existe no jornalismo ou na literatura. Construir coisas é o mais difícil.
    “E o que foi aquela tosca justificativa oficial dada pela vitória do mineiro contra o queridinho australiano no rio???” Isso foi feito por respeito às milhares de críticas ao julgamento. Foi uma defesa dos critérios aplicados. Jamais ocorreu a mesma coisa com o KS por ser o ícone do esporte e não desencadear dúvidas generalizadas no julgamento, mesmo quando ele é “overscored”. Há erros no julgamento sim, mas daí chamar a instituição de patética e falida é uma desproporção.

    • Pois é meu caro, como vc mesmo afirma: “Jamais ocorreu a mesma coisa com o KS por ser o ícone do esporte e não desencadear dúvidas generalizadas no julgamento, mesmo quando ele é “overscored”.”

      Pois então, isso está certo? Se ele é ou não um ícone, isso em nada tem a ver com julgamentos. Todos tem que ser tratados igualmente. Não estou de maneira nenhuma tirando os evidentes méritos do careca alienígena, mas a verdade é que aquela declaração, bem como a punição por anti-doping, isso só acontece com brasileiros. E isso está errado.

      E vc fala em “milhares de críticas ao julgamento”. Quais críticas? Os twiters do matt wilkinson? Esse muleke tinha acabado de ingressar no WT e já estava reclamando. Quem é ele para criticar o nosso guerreiro Mineiro? E a ASP ainda dá trela.

      Veja bem, se a ideia era ajudar a si própria e ao mineiro, melhor seria a ASP ficar quieta. Aquela declaração sobre o floater do mineiro foi horrível, fez ele parecer um “vilão” do circuito. Alterou a reputação dele para pior, apesar que ele não está nem um pouco preocupado com isso – e faz muito bem de manter esta postura. Quem não deve não teme.

      Eu entendo que o teste antidoping deveria ser aplicado apenas para drogas que efetivamente aumentem o desempenho dos atletas. E eu quero ver quais serão as punições contra drogas recreativas e drogras para aumentar desempenho. A ASP já demorou para revelar e esclarecer estas punições. Vamos ver quem cairá na malha fina da ASP, ainda tenho minhas dúvidas, vamos esperar para ver.

      E quanto ao teu questionamento de apontar os nomes, meu amigo, não é momento de fazer caça as bruxas. O que o Lohran falou é sabido por todos sim, e portanto não é o caso de revelar nomes até porque isso não ajudaria em nada.

      ALOHA!!!

      Renato

  7. Com o fim de acrescentar, não de debater em vão o texto, digo que não chamaria a ASP de falida, mas de amadora e xenófoba, como foi provado inúmeras vezes, sempre ajudando os australianos, sempre sacaneando os brasileiros, muitas vezes sacaneando os havaianos também (vingança contra o que ocorre no Havaí?).
    Sou contra o anti-doping. Surf tem muito pouco a ver os esportes olímpicos. Droga nenhuma faria o Medina dar os aéreos que ele dá, ou o faro pra tubo do Slater e dos Hobgoods, e por aí vai. É certo que há aquelas que podem criar alguma vantagem física, mas, dentro d’água e, sobretudo, em pé sobre a prancha, de muito pouco poderá valer (acredito eu).

  8. Belo texto Lohran! Pra variar gerando boas polêmicas… mas independente de vc estar certo ou não, vamos torcer para que essa e novas implementações tragam bons resultados para o SURF como um todo!!! E que vai ser controverso, não tenha dúvidas. Falar de drogas e dopping por si só gera controversias.. que dizer de drogas, surf e ASP tudo junto?
    Abraços!

  9. Gosto sempre de ler os comentários de artigos e posts, pois neste espaço vemos como informações tocam pessoas. O modo e tipo da reação ao toque é o que menos importa. O que realmente importa, é ter a felicidade de abordar um texto a sensibililizar pessoas, pondo-as se mostrarem. Iluminado é aquele que é capaz de provocar manifestações, inclusive às do tipo do “fervoroso leitor Daniel” que deve ser amigo de alguém que tem prancha (talves rachada no bico e reparada com durepox) e se acha entendido de Surf. Más é isto aí Lohran, se não fossem por aqueles que vivem nas trevas…qual seria a função do “homem” da lanterna?

  10. P.S1.:
    Desculpe-me Lohran, espero que hoje, Maresias tenha lhe reservado uma boa recepção…Boas ondas
    P.S.2: sei tb que “talvez” se escreve com “z”
    abç

  11. […] Leia também: Teste antidoping no World Tour, uma lei para inglês ver […]


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