Publicado por: Lohran Anguera Lima | 22/02/2012

Pororoca, Surfando na Selva – Serginho Laus

Pororoca, palavra de origem indígena, proveniente do termo “poroc poroc”, significa destruidor, grande estrondo, consoante ao dialeto das tribos do baixo rio Amazonas. Fluindo pelas mais temidas águas dos setentrionais rios brasileiros e águas doces de outros sítios do globo, mais precisamente sobre as ondas das pororocas, Serginho Laus construiu sua vida e uma obra-prima: o livro Pororoca, Surfando na Selva.

Pororoca no rio Araguari (AP). Foto: Bruno Alves.

Publicado em 2006, pela editora Ediouro, Pororoca, Surfando na Selva é uma obra ousada, rica e essencial. Serginho Laus, jornalista por formação, trabalha o vernáculo com tal maestria, de modo a deixar o leitor embutido em quaisquer aventuras descritas no livro. Os detalhes minuciosos nas descrições dos fatos e acontecimentos são destaque e elemento indispensável para o indiscutível sucesso das mais de 200 páginas. Engana-se, leitor, caso pense ser, apenas, um espectador ao folhear as páginas. Será algo além, parte integrante. Sentar-se-á dentro das voadeiras prestes a ter o motor inoperante, a instantes da chegada da pororoca; naufragará e encalhará junto a paupérrimas embarcações; não conseguirá dormir, apavorado com o barulho assustador, estrondoso e destruidor da pororoca noturna; espantará mosquitos, caso também tenha esquecido-se de vacinar-se contra a febre amarela; prenderá a respiração durante longos e sufocantes caldos, em barrentas, selvagens e impiedosas águas no meio da selva; passará perrengues na sempre dispensável companhia de onças, jacarés, piranhas, tubarões, arraias, cobras e candirus; além de inúmeras outras situações, notavelmente, preocupantes e desagradáveis.

A obra em questão inicia-se, brilhantemente, com um prefácio redigido por Edinho Leite. Além dele, vários outros grandes nomes do surf nacional, como Rico de Souza, Teco Padaratz e Ricardo Tatuí, deixam os seus relatos, engrandecendo todo o digníssimo e autossuficiente conteúdo de Pororoca, Surfando na Selva. Em seguida, os leitores são presenteados com ilustradas e elucidativas páginas, explicando o que é a pororoca, como ela se forma, além de todos os detalhes técnicos necessários para compreendê-la corretamente. Alguns pontos a registrar: a pororoca é um fenômeno decorrente de um embate, um confronto, um duelo entre as águas do rio e do mar, ocorrendo, portanto, próximo à foz dos rios. Ela ocorre na época dos equinócios (de fevereiro a maio – outono –, e de agosto a setembro – primavera –), principalmente quando há lua nova ou lua cheia, explicação por conta dos princípios físicos da atração gravitacional. Vale ressaltar que a pororoca é uma onda a qual ocorre uma vez durante o dia e outra durante a noite, sempre na maré enchente. A partir disso, podemos concluir que esse fenômeno ocorre quando a água do mar vence a água do rio na guerra de forças, formando, consequentemente, uma onda que segue à montante do rio, ou seja, que sobe o rio. Portanto, surfar a pororoca é ficar de costas para o mar e adentrar na selva.

Pororoca no rio Araguari (AP). Foto: Toninho Jr.

A segunda parte de Pororoca, Surfando na Selva consiste num belíssimo e inesquecível diário de viagens. Serginho Laus vale-se de muita emoção, empolgação e realismo para prender a atenção do leitor, sugando-o para dentro de cada história e aventura, sem pedir licença nem permissão, apenas injetando-lhe na mente boas doses de admirável português, objetivando que cada qual se delicie com as suas de adrenalina.

Explicadas as condições de formação da pororoca, é possível perceber, logicamente, que a sua existência não se restringe ao Brasil. A própria obra, inclusive, cita pororocas estrangeiras, como: mascaret (França), servern bore (Inglaterra), black dragon (China), turn again (Alasca). Há notícias, também, de pororocas na Indonésia (seven ghosts), na Índia, na Malásia e na Austrália. Entretanto, Serginho Laus, pessoalmente, confessou-me que a brasileira é a maior, mais longa e mais forte onda de rio que existe. Destaco, no livro, a viagem feita à França, em 2004, para surfar a mascaret, localizada na região sul do país, próxima a Bordeaux. Muitas imagens e histórias compõem um pitoresco cenário, com castelos e vinícolas decorando o ambiente, totalmente adverso a nossa realidade: “Em vez de matas fechadas, temos marinas, casas antigas, castelos e paisagens lindas (…). Outro aspecto positivo é que não existem animais selvagens”.

Mascaret, a pororoca francesa. Foto: arquivo pessoal Antony Colas.

Serginho Laus, em 24 de junho de 2005, entrou para Guinness Book ao surfar, no rio Araguari (AP), com um longboard tamanho 9’2’’, durante 33 minutos e 15 segundos a distância de 10,1km, a maior percorrida até então. Em 2006, seu recorde foi batido pelo inglês Steve King, o qual surfou a servern bore por 12,23km ininterruptamente. A quebra do recorde mundial pelo Serginho envolveu admirável persistência de toda a equipe, inclusive física, relembra Laus: “Fiquei na mesma posição durante 10 minutos, uma eternidade. Pensei em desistir, já não aguentava mais. Sentia muita dor nas pernas e na coluna lombar. A pressão era gigantesca, mas não queria parar”. Sobre a descoberta de que havia quebrado o recorde, Laus relata: “Comecei a gritar de alegria, colocando para fora tudo o que estava preso. (…) O recorde mundial da onda mais extensa do mundo era da pororoca do rio Araguari, no Brasil. (…) Êxtase total!”. Já menos eufórico com a conquista, Serginho finaliza: “O recorde mundial foi uma vitória, mas a aventura continua!”.

Serginho Laus na pororoca do rio Araguari (AP). Foto: arquivo pessoal Serginho Laus.

Não existe uma barreira nem mesmo uma sutil separação entre Serginho Laus e pororoca. Ambos confundem-se, entrelaçam-se, amam-se. Costumo dizer ao Serginho que ele é o guardião da floresta e da pororoca, algo como uma entidade protetora. Embora a pororoca brasileira tenha sido surfada, pela primeira vez, por Guga Arruda e Eraldo Gueiros, em 1997, é na presença de Serginho Laus que ela demonstra sua gratidão por tantos cuidados ao longo das mais de 75 temporadas por ele lá vividas. Cuidados esses com a natureza, com os ribeirinhos, com os visitantes e com as tradições locais. Laus receberá uma das melhores poltronas reservadas aos que da selva tiraram o seu sustento, sem dela retirar mais nada, além de felicidade e alegria. O assento de um verdadeiro guardião da pororoca.

“A energia que envolve a floresta é mágica, e ao deslizar na onda mais longa do mundo, sua alma é purificada.” Serginho Laus.

Auera Auara,

Lohran Anguera Lima.

Pororoca, Surfando na Selva - Serginho Laus


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