Publicado por: Lohran Anguera Lima | 17/04/2012

Pay-per-view no World Tour, estou pagando para ver

Pay-per-view no World Tour. Arte: Dadá Souza.

Quando a paz parecia instaurada no mundo competitivo do surf, surge a notícia, há alguns dias, diretamente da cúpula da ASP, acerca da possibilidade de se iniciar um pay-per-view no World Tour. A instituição em questão intenta, com brevidade, iniciar uma cobrança, de modo que os espectadores tenham de pagar para assistir aos campeonatos pela internet. O que sempre foi gratuito poderá, não dificilmente, tornar-se produto de consumo de alguns poucos entusiastas dispostos a abrir a carteira e doar esmolas a ASP. Funcionará? Creio que não.

A ASP anunciou essa possibilidade de cobrança fundada na assertiva de que é, financeiramente, muito custoso à instituição arcar com toda a tecnologia envolvida na transmissão de um evento. Realmente, o dinheiro demandado para tal prática não é irrisório, principalmente se projetarmos esses números sobre uma instituição pequena, decadente e desnutrida como a ASP. Entretanto, não me deixa nada satisfeito saber que o espectador é quem financiará todo esse circo. Haja vista a instituição necessitar de ajuda monetária para a continuidade das transmissões, por que não repassar o ônus aos patrocinadores das etapas, os reais detentores da renda grossa envolvida no surf? Livrai os fiéis seguidores da cultura surf de mais sacrifícios! De maneira alguma, esses milhares de dólares tão faltosos a ASP onerarão os cofres da Billabong, da Quiksilver e da Rip Curl. É o mínimo que essas empresas podem fazer pelos milhões de consumidores de seus produtos no mundo todo.

Além do supraexposto, a ASP promete melhorar as transmissões, proporcionando maiores benefícios aos fãs do esporte. Piada. Já assistimos em high definition, em diversos idiomas e de diferentes ângulos a todas as ondas dos eventos nos locais mais inóspitos do globo, como Teahupoo e Fiji. Existe, também, a promessa de a ASP melhorar as localidades do World Tour com as finanças arrecadadas com o pay-per-view. Piada. Todos sabemos que os responsáveis pelas escolhas das localidades dos eventos são as grandes empresas patrocinadoras dos mesmos. E elas continuarão realizando campeonatos onde existir maior benefício, seja na forma de retorno financeiro, seja numa maior visibilidade da marca.

Obviamente, muito do sucesso ou do fracasso desse projeto dependerá do valor anual cobrado. Mas arrisco-me em dizer que isso já não começou corretamente. Eu explico. A ASP, por ser uma instituição a qual não detém os direitos de imagem e transmissão dos eventos, quer buscar no pay-per-view um modo de lucrar. Mal sabe ela – ou finge não saber – que o sucesso no número de visualizações dos campeonatos pelo webcast é recente. Isso demonstra a imaturidade ainda existente no grande público espectador. Cobrar por algo que é gratuito espantará milhares desses jovens e incipientes admiradores. “Pagar para ver campeonato de surf? Quando consigo ligar, assisto a umas duas baterias e já tenho de voltar ao trabalho e aos estudos”, pensariam alguns. Outros: “Gastarei dinheiro para acompanhar eventos os quais, não raramente, ocorrem de madrugada. Preciso dormir, oras! Não sei se vale o gasto”. Ainda outros: “Quando estou no computador à toa, ligo para olhar um pouco; não compensa pagar por alguns minutos de distração”. Posso estar, completamente, enganado, mas creio que, apenas, uma desprezível porcentagem dos atuais espectadores optarão por pagar o pay-per-view, ainda que vários deles a contragosto, sendo muitos desses dependentes das transmissões para trabalhar.

Havendo, desse modo, uma drástica redução no número de espectadores, essa poderá ser uma das últimas decisões da existência da ASP e do World Tour. Com a queda nas visualizações, as grandes empresas patrocinadoras perderão muita visibilidade do seu produto, podendo não mais ser lucrativo e benéfico continuar o financiamento e a promoção de etapas. Logicamente, esse é um pensamento extremista. Espero que não chegue a tal ponto. Entretanto, a ASP precisa entender que ela não é uma instituição poderosa, formadora de opinião e de multidões de seguidores dogmáticos como é a NBA ou a NFL. Estas duas instituições são, sim, suficientemente grandiosas para cobrar pelas transmissões, haja vista serem detentoras de muitos mais anos de história e tradição, além de possuírem muitos milhares de fãs, a mais do que o surf de competição, ao redor do mundo.

A instalação do pay-per-view no World Tour da ASP, portanto, terá um efeito inverso ao planejado. As perdas de público serão, imensamente, mais pronunciadas e dolorosas do que o benefício obtido com as esmolas recebidas. É pouco dinheiro envolvido para um risco tão grande. A ASP depende dos espectadores, justamente o elo mais fraco da corrente (público – ASP – empresas patrocinadoras). Se a mendicância da ASP é tão necessária para a sua sobrevivência, posso garantir que mendigo ela não sabe ser. Está pedindo esmola às pessoas pobres em vez de pedir às ricas.

Muito obrigado a todos,

Lohran Anguera Lima.

Pay-per-view no World Tour, estou pagando para ver.


Responses

  1. Lohran, meu amigo, cabe observação. Sim, ele pensaram nisso. Não, isso não deve ocorrer tão cedo. A ASP não banca as transmissões, quem banca é a marca patrocinadora. Pode parecer estranho, mas quase todas as marcas sofreram muito com o esfriamento do mercado de varejo no mundo. Os eventos que acontecem nas madrugadas tupiniquins, rolam durante o dia nos mercados que mais interessam às marcas… há tantos detalhes nessa história que vale um daqueles papos com cerveja. Mas, fique sossegado, muito embora tenham falado nisso, já vi que a logística é inviável por enquanto. Foi só uma idéia.

  2. pois é lohran,
    essa idéia tem nome…
    tiro no pé.

    edinho, tudo que tu falou é verdade… mas justifica eles quererem espantar o povo da web? acha que ia ajudar a erguer a venda de bermudas? idéia de jirico…

    abraço aos escribas!

    caio


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