Publicado por: Lohran Anguera Lima | 01/07/2012

A decisão de competir

Taj Burrow e seu técnico Johnny Gannon. Foto: Sherm.

Por volta de duas horas antes de competir na etapa brasileira do mundial de 2012, Jadson André lesiona-se gravemente (Jadson André comenta lesão). Atleta chora, técnico preocupa-se, equipe médica trabalha, e todos ficam na expectativa: ele vai competir? O que a maioria deve pensar é “se tiver condições, compete”. Entretanto, isso nem sempre é seguido, muito menos é uma verdade inquestionável. É necessário compreendermos e não negligenciarmos a existência de muitos interesses em torno do atleta. Saúde? Patrocínios? Resultados? Mídia? O que pesa mais na decisão de competir ou não? Impossível generalizar. Cada atleta com suas particularidades. Cada situação com as suas questões a serem analisadas.

Vale ressaltar que, embora o corpo médico não tivesse liberado o Jadson para competir na ocasião, haja vista a possibilidade de ocorrência de uma lesão grave, ou do agravamento da mesma, quando tratamos de atletas de alto nível, muitas vezes a opinião em prol da saúde do atleta é superada pela vontade – ou até mesmo “obrigatoriedade” – do atleta de competir. Não podemos esquecer que há muito dinheiro envolvido em torno do competidor. Um não comparecimento no momento da bateria pode prejudicar a visibilidade de algum patrocinador e, consequentemente, alguns contratos do atleta. Além disso, existe a necessidade de bons resultados para o atleta se manter no tour do ano seguinte. Deixar de competir em alguma etapa pode inviabilizar a permanência do atleta na elite do ano seguinte, caso ele não esteja com bons resultados, obviamente.

Pessoalmente, estando presente nas cenas dos fatos, não vejo a decisão de competir de Jadson como reflexo de uma preocupação contratual ou expositiva. Jadson estava, sim, preocupado com a saúde do seu joelho – tanto que procurou o centro médico em três ocasiões após a lesão –, mas por ser a etapa brasileira do World Tour, o brasileiro demonstrava explícita vontade de entrar na água, principalmente, acredito, pela torcida a qual o apoiava das areias e pelos milhares de fãs que o acompanhavam mediante o webcast.

Torcida brasileira no Billabong Rio Pro 2011. Foto: ASP/Cestari.

É muito complicado afirmar de quem é a responsabilidade de decidir se o atleta deve ou não entrar para competir. É do atleta? É do técnico? É do médico? É do patrocinador? É uma decisão tomada em conjunto? A decisão tomada em conjunto me parece ser uma boa alternativa, embora nem sempre ela se mostre possível ou mais sensata, haja vista muita coisa envolvida não ser de conhecimento total por todas as partes (atleta, técnico, médicos e patrocinadores). Por exemplo, Gabriel Medina é um que sai da sala da sua casa quando seu pai Charles senta-se com o pessoal da Nike para conversar sobre contratos e valores. Por outro lado, existem atletas que possuem técnico, unicamente, para auxiliá-los nas performances ou no posicionamento dentro da água, sem que haja relação com a papelada contratual de fora da água. Assim, como tomar uma decisão conjunta se nem mesmo existe uma equipe onipresente em torno do atleta e dos seus interesses? Quando essa equipe existe, volto a dizer: a decisão em conjunto me parece ser a melhor opção. Um atleta pode precisar se reclassificar para a elite do ano seguinte para não perder o contrato, podendo o resultado de uma bateria interferir no destino da sua carreira e, por que não, no da sua vida. Mesmo que uma decisão conjunta se mostre mais coerente, é evidente que não agradará a todas as partes e é notório que não necessariamente o correto será decidido.

Mas uma coisa é certa: a equipe médica do campeonato deve estar preparada para colocar esse atleta em condições de competir, nem que para isso ele tenha de tomar medicamentos fortes, injeções, fazer infiltrações ou passar por qualquer outro tipo de procedimento, seja ele preventivo ou terapêutico. Logicamente, nem sempre isso é possível. A lesão de Jadson, por exemplo, não foi resolvida pelo corpo médico antes de ele entrar na água, entretanto concordo que foi um pouco melhorada com a estabilização do joelho. Ou seja, o departamento médico fez o que estava ao seu alcance. O fato é que o atleta é a estrela do espetáculo. Cabe à equipe médica deixá-lo o mais apto possível para desempenhar o seu trabalho, isto é, competir.

Como integrante do centro médico, vejo um pouco de irresponsabilidade na decisão de Jadson. Como brasileiro e torcedor, orgulha-me as suas atitude e decisão de competir.

Muito obrigado a todos,

Lohran Anguera Lima.

A decisão de o atleta competir ou não cabe a quem?


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