Publicado por: Lohran Anguera Lima | 23/07/2012

Entrevista com Tito Rosemberg

Tito Rosemberg, nascido em setembro de 1946, natural do Rio de Janeiro, passou quase toda a vida viajando pelos mais diversos países dos cinco continentes. Jornalista e viajante, teve o privilégio de percorrer caminhos e rotas quase nada exploradas pelo homem. Ícone do surf nacional, Tito conquistou respeito e admiração pela alma jovem, pela vontade do desconhecido, pelo comprometimento demonstrado em tudo o que faz e pelo belíssimo trabalho desempenhado durante décadas. Eminente pessoa, um expoente e exemplo. Com vocês, com exclusividade e carinho para o Near The Ocean: Tito Rosemberg.

Muito obrigado a todos,

Lohran Anguera Lima.

Tito Rosemberg. Foto: Ignácio Aronovich / http://www.lost.art.br

Tito, você se considera mais um jornalista ou um aventureiro?

Jornalista tenho certeza de que sou. Minha compulsão em reportar o que vejo em fotos e texto é algo que vem de dentro da alma, incontrolável. Aventureiro é uma expressão que considero meio piada, pois eu nunca procurei uma “aventura”. Eu busco conhecer coisas que não estão no roteiro turístico tradicional e por isso acabo tendo que vencer algumas dificuldades para chegar lá. Eu me considero um viajante, uma pessoa que gosta da estrada, que dá de dez na “aventura” por si só. Gosto de perambular pelo mundo, passar três meses viajando de ônibus pela África meio sem rumo, quatro meses sem roteiro fixo pelo sudoeste da Ásia. É o meu tipo de viagem. Aventureiro é um cara que trabalha oito horas por dia num escritório de uma cidade grande, no fim de semana sai para pular de uma montanha e depois volta ao escritório. Não tenho o menor desejo de me arriscar, de me expor ao perigo. A emoção está na descoberta do novo e estar longe do familiar.

Como foi a sua relação com a Ditadura Militar?

Sempre fui militante político e sempre acreditei que a política é a única forma de organizarmos a sociedade. Desde cedo, participei de todos os grêmios estudantis das escolas que frequentei. Em 1964, quando o golpe militar aconteceu, eu trabalhava como repórter na Revista Manchete. Tinha apenas 17 anos, mas já sabia das coisas da organização social. O golpe de 1964 foi muito impactante na minha vida. Justo quando eu começava a ter idade para frequentar ambientes de adultos, eles foram fechados pelos militares.  Muitos amigos foram presos, conhecidos torturados. Não parti para a luta armada porque sempre fui pacifista e achava que outras estratégias deveriam ser usadas antes da violência para nos livrarmos dos militares golpistas. Acho que tomei a atitude certa e não me arrependo. Em 1969, quando a ditadura apertou, fui embora do Brasil lavar pratos em Londres.

Explica melhor essa história…

Quando os militares fecharam o Congresso, resolvi morar em Londres. Vendi tudo o que tinha aqui no Brasil, prancha, carro, roupas e até sapatos, para juntar o dinheiro da passagem só de ida. Em janeiro de 1969, parti. Fui encontrar um amigo carioca que trabalhava em restaurantes em Londres. Logo arranjei emprego num restaurante, e iniciou-se a minha carreira de lavador de pratos, que durou quase um ano. Diverti-me muito nessa época, inclusive consegui ir a um show do Jimmy Hendrix! Londres mudou a minha cabeça e o meu conceito de vida em sociedade.

Arpoador, Rio de Janeiro, em 1964. Foto: Tito Rosemberg.

Essa foi a sua primeira viagem para o exterior?

Não, a primeira viagem para fora do país foi em 1967, com meu pai, que tinha negócios na Argentina, Chile, Peru e México. Eu trabalhei uma época com ele, e essa viagem, apesar de ser a trabalho, foi muito interessante. Tanto no Peru quanto no México, consegui até alugar umas pranchas e pegar ondas.

Mas todas as suas viagens giravam em torno de procurar ondas e em torno surf, ou haver surf no local onde você estava era apenas uma grata coincidência?

Viajo para descobrir, conhecer e curtir. Se tivesse onda, era melhor, mas se não tivesse, não fazia falta. Muitas vezes tive que ficar meses sem surfar e, apesar da falta, se o lugar fosse interessante eu nem me importava. Mesmo hoje, depois de 44 anos surfando, por problemas de saúde não posso mais surfar, mas admito que não me faz falta. Já surfei muito e em tantos lugares, em ondas tão incríveis, que não posso reclamar!

E as suas andanças pela Europa, Tito, como foram?

Fiquei um ano e meio na Europa quando saí do Brasil. Assim que consegui juntar um trocado, comprei um Austin Mini, e junto com três amigos argentinos que conheci lá, saímos rodando por todo o continente. Para ganhar dinheiro, cantávamos na rua, aproveitando que meus amigos tinham dois violões e sabiam cantar muito bem o folclore latino americano. Rodamos pela França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Noruega, Áustria, Iugoslávia, Bulgária, Turquia, Grécia, Itália e Espanha. Dessa primeira vez não deu para conhecer a África, mas a semente para essa viagem estava plantada.

Sabemos que essa semente germinou, teve vida e, regada com muito espírito jovem, rendeu bons frutos e boas histórias.

Muitos lugares ficarão para sempre na minha cabeça, mas o Saara é disparado o que mais me emocionou. Passei, ao todo, mais de seis meses viajando nele e sou, até hoje, fascinado em voltar lá. Atravessei esse deserto por três vezes, em diferentes viagens e em diferentes rotas. As histórias são tantas que precisaria de várias páginas e horas para apenas começar a contar algumas delas. Por essa razão, estou escrevendo um livro de memórias, o qual poderá trazer ao público algumas fases da minha vida que realmente foram dignas de um viajante. Aqui não poderia falar delas porque me desviaria do projeto do livro. Mas tenho certeza de que quando ele for publicado, muita gente vai curtir.

Acampamento no sul do Marrocos, em 1974. Foto: Craig Peterson.

Como era o surf na Europa nessa época?

Quando cheguei a Biarritz pela primeira vez, fiquei encantado com a beleza das ondas, da natureza e das meninas. Ali começava o meu longo caso de amor com o País Basco, que até hoje não passou. Encontrei belas ondas, mas sem prancha foi difícil conseguir uma emprestada. Os franceses não queriam me emprestar. Acabei conhecendo um americano, o Bob Cooper, lendário surfista da Califórnia que shapeava na Barland & Roth, então passei a usar as pranchas dele. Junto com sua esposa, viajamos por muitas praias em busca de onda, como Jersey e Normandia. Havia pouquíssimos surfistas franceses, a maioria era de estrangeiros: australianos, ingleses e americanos. Eu era o primeiro e único brasileiro nas praias.

Acredito que você ter sido o primeiro a surfar em algumas praias do mundo não seja uma situação estranha.

Maraca e eu fomos os primeiros a surfar Geribá, em Búzios, em 1966. Pelo menos os pescadores nunca tinham visto um surfista antes. Também fui o primeiro a surfar na Mauritânia, no Saara, junto com meu grande amigo e fotógrafo da SURFER Magazine Craig Peterson. Mas, se for incluir onde fui um dos primeiros, posso citar Itaúna, em Saquarema, Macumba e Prainha, no Rio de Janeiro e também Costa do Marfim e Libéria, no litoral da África.

Navegação com bússola no Saara da Mauritânia, em 1975. Foto: Tito Rosemberg.

E a Ásia?

Só fui conhecer a Ásia em 2003, quando passei quatro meses perambulando pelos caminhos de lá, viajando de ônibus, trem, barco e carona. Fui a Bali, Cingapura, Malásia, Tailândia, Laos, Vietnã, Camboja e Índia.

Tenho certa curiosidade por lugares inóspitos. Você conhece o litoral russo, por exemplo?

Lugares inóspitos sempre foram meus alvos. Nunca estive na Rússsia, mas tenho planos! O Círculo Polar Ártico também é distante. Estive em Inuvik, uma pequena cidade do Canadá que fica mais perto do Polo Norte do que o Alasca. Gelado e lindo!

Depois de tantas viagens, Tito, qual foi o lugar que mais te marcou?

Por incrível que pareça, não tem um lugar em especial que tenha me marcado. Sem dúvida, o Saara foi o local que mais me deixou emocionado. Adorei a Grécia e os gregos, mas muitos dos lugares mudaram tanto ao longo dos anos que já não existem mais. A Califórnia, por exemplo, onde vivi por onze anos, lugar que eu adorava e me sentia nativo, hoje é tão careta que nem tenho mais vontade de ir. Acho que a minha segunda pátria é Guethary, uma pequena aldeia no País Basco francês onde as ondas são sensacionais. Lá fiz muitos amigos que me consideram “da família”. Sempre volto!

Guethary, País Basco, França. Foto: Tito Rosemberg.

Califórnia careta. Acredito que não em 1970, quando você foi para lá pela primeira vez.

A Califórnia foi uma explosão sensorial para mim. Naquela época havia a guerra do Vietnã, e os hippies dominavam a cena da praia e do interior. Foi uma época inesquecível e que marcou a minha vida para sempre. Trabalhei com alguns caras famosos, como o Donald Takayama, o Mike Doyle e o Skip Frye. Acabei ficando amigo deles. Como eu era bem mais novo, ensinaram-me quase tudo que sei sobre shape e glass.

Não se esbarrou com o Miki Dora por lá?

Quando cheguei à Califórnia, em 1970, já havia morado com o Miki Dora em Guethary, na França, na cabana de praia do Urkirola Surf Club, onde os surfistas franceses guardavam seus pranchões. Como eu havia feito amigos por lá e não tinha onde morar, eles me deixaram dormir nessa primitiva cabana durante algumas semanas. O Dora apareceu duro e sem ter onde morar também. Depois de os franceses autorizarem, ele ficou umas duas semanas acampado comigo. Ele era gente muito fina, mas totalmente bizarro. De longe se via que era um cara diferente. Conversamos e pegamos muita onda juntos. Quando cheguei à Califórnia, ele ainda estava viajando pelo mundo.

Cabana do Urkirola Surf Club, Guethary, País Basco, França, em 1969. Foto: Tito Rosemberg.

E o que tanto mudou daquela época para a atualidade?

A grande mudança, disparado, é a alienação e a futilidade dos jovens de hoje. Nesse período, não vi mudança no comportamento dos adultos porque estes, desde sempre, foram, são e serão caretas, medrosos, conservadores e tradicionalistas. Nas décadas de 60 e 70, os jovens eram contestadores, rebeldes, desafiavam o “sistemão” e buscavam novas formas de viver. Hoje, a garotada só quer acumular dinheiro, exibir brinquedos tecnológicos, ficar sarada e desafiar a morte em esportes cada vez mais desvairadamente perigosos. Os jovens estão distantes da política e dos movimentos sociais, apenas interessados numa boa carreira profissional. Uma tristeza enorme.

Tito, muito obrigado pela atenção e tempo despendidos, mas principalmente pelo carinho. Quer deixar algum recado? O espaço é seu, fique à vontade.

O único recado que eu gostaria de deixar para quem se deu o trabalho de ler esta entrevista até aqui é que não se acomodem. O segredo do gênio é levar a alegria da criança até os seus últimos dias. Evitem acomodar-se, pois o conforto é a pior droga que existe. O mundo é um enorme parque de diversões, e cabe-nos explorá-lo em toda a sua plenitude.  Quem ficar de bobeira, apenas juntando dinheiro e acumulando bens materiais, vai quebrar a cara quando chegar à velhice. Sempre me perguntei por que havia tantos velhos azedos, tristes e mal humorados. Ainda hoje, vejo-me empolgado com os tantos projetos que tenho, com as tantas lutas às quais me dedico, sem tempo sequer para me azedar ou me deprimir. Entendo que foi esta combinação de fé num mundo melhor e do interesse em muito mais coisas do que as ondas que me fez diferente. Que cada um dos leitores se toque de que só vivemos uma vez, e que viver iludido pela sedução dos bens materiais e pelo consumismo é a receita certa para uma vida jogada fora. Quem viver, verá!

Botswana, em 2009. Foto: Tito Rosemberg.

Poema da Juventude

A juventude não se mede pela idade.

Juventude é estado de espírito que se baseia no querer.

Juventude é disposição para fantasiar, a ponto de transformar em realidade a fantasia.

Juventude é a vitória da disposição contra a acomodação.

Juventude é o gosto pela aventura, superando o amor ao conforto.

Ninguém envelhece simplesmente porque viveu determinado número de anos.

Envelhece aquele que abdica dos ideais.

Assim como o passar dos anos se reflete no organismo, a falta de empolgação se reflete na alma.

O medo, a dúvida, a falta de segurança, a fuga e a desconfiança se constituem em anos que dobram a cabeça e levam à morte o espírito.

Ser jovem quer dizer ter 60 ou 70 anos e conservar a admiração pelo belo, a admiração pelo fantástico, pelas ideias brilhantes, pela fé nos acontecimentos, o desejo insaciável da criança por tudo o que é novo, o instinto pelo que é agradável e pelo lado feliz da vida. Você será jovem enquanto sua alma conservar a percepção da mensagem do belo, do simples e a disposição de viver.

Você será jovem enquanto conservar a mensagem da grandeza e da força que nos é dada pelo mundo, por um ser humano ou pelo infinito.

Você só será velho se tiver a alma dilacerada, se for dominado pelo pessimismo ou pelo cinismo. Neste caso, que Deus tenha piedade de sua alma.

[Inscrição em pedra de granito que se encontra no Parco Giardino, em Verona, e que foi publicada no livro 1000 Meilen Abenteuer, de Axel Thorer/Carlo Blumenberg Steinheim Verlag Gmbh, München.]

Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, em 1965. Foto: Tito Rosemberg.

Tito Rosemberg no Arpoador, em 1966. Foto: Gilberto Squenazi.

Praia da Macumba, Rio de Janeiro, em 1966. Foto: Tito Rosemberg.

Acampamento em Tres Marias, Baja Califórnia, México, em 1970. Foto: Tito Rosemberg.

Yosemite, Califórnia, em 1970. Foto: arquivo pessoal Tito Rosemberg.

Acampamento em Laffitenia, País Basco, França, em 1974. Foto: Tito Rosemberg.

O sempre jovem Tito Rosemberg. Foto: arquivo pessoal Tito Rosemberg.


Responses

  1. Tito ao acabar de ler fiquei ainda mais fã!

  2. Grande Tito :
    Parabéns pela perspectiva genial da vida e do nosso papel no planeta !

    Aloha !

  3. O verdadeiro pesquisador nao tem bagagem, vê as coisas como elas sao. Carinhoso abraço ao Tito Rosemberg – viajante tenaz. Ibis.

  4. Tito, não tenho palavras que expressem o quanto te admiro.
    Grande abraço!

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  6. Eu ja sabia de suas aventuras, mas foi no Club Med de Itaparica em 1985 qe te conheci pessoalmente junto com o Compadre… foi por acaso, apos uma session de autogrados do livros de vcs sobre o Camel Trophy. Suas viagens tras inveja( no bom sentido ) a muitos, mas ao mesmo tempo GERA uma forte admiracao … para varias pessoas…Sou uma delas..!!!! Grande abraço TITO !!!

  7. Obrigada pela entrevista Lohran.
    Tito é realmente uma inspiração! Que história de vida…

  8. […] pois foi um dos primeiros a desbravar a costa africana na década de 70. (quem não conhece, clica aqui e acessa essa entrevista no blog Near the […]


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