Publicado por: Lohran Anguera Lima | 22/10/2012

Quando a chama quer se apagar

Quando a chama quer se apagar. Foto: photoforum.ru

Já faz alguns anos que estou envolvido com o esporte e, principalmente, com seus bastidores (campeonatos, revistas, sites, artigos, entrevistas e tudo mais). Envolvido com o esporte, aqui, não significa pegar onda, mas estar por traz de parte dos meios de comunicação do surf e dos negócios de surf. Sempre o fiz por prazer, (quase) nunca recebendo pagamento financeiro em troca. Benefícios, agrados e facilidades sim. Uns tapinhas nas costas de vez em quando. Muita gente acha o máximo ver alguém descendo a lenha na genial ASP e nas suas sempre bem sucedidas patifarias; nas quase nada exploradoras empresas de surfwear; nas profissionais, responsáveis e jamais errôneas atitudes dos atletas; e nos velozes e irretocáveis rumos profissionalizantes do esporte. Mas ninguém quer comprar a ideia. É o cachorro inconveniente e malcheiroso da sua namorada: bonitinho de longe, pegar no colo jamais. Há momentos em que me pego refletindo sobre o que faço no meio do surf. Como este, agora. Tempo dedicado, desentendimentos, entendimentos, satisfação, insatisfação, reconhecimento e desconhecimento. Tudo isso é colocado na balança do “vale a pena?”. Geralmente, o saldo é positivo devido à satisfação pessoal, mas há momentos em que a chama quer se apagar. Como este, agora.

Nesses momentos é que devemos ser sinceros com nós mesmos. Um sentimento de insatisfação começa a surgir. “Larga esse texto para lá”, “Dois dias para editar essa entrevista?”, “Quantos leram o que você escreveu?”. Vozes da consciência. E as coisas que fazemos nos bastidores do surf passam a não ser mais tão prazerosas. A incógnita de estar, ou não, no lugar certo torna-se parte do cotidiano. De maneira alguma, vejo essa síndrome como algo restrito a minha pessoa. Isso é evidente em muitos dos jornalistas, fotógrafos, editores e colunistas envolvidos com o surf. Principalmente naqueles que fazem disso o seu trabalho e forma de sustento. Eles possuem um olhar de lamentação, de cansaço, de insucesso. Algo como “Trabalho nisso há mais de 20 anos e, ainda, ando de Corsa ano 95”. Se alguém aqui tem um Corsa ano 95, eu acho legal. Para mim, escrever textos e participar dos bastidores do surf é uma atividade extra. Por isso, ainda, cá estou. Se fosse meu trabalho efetivo, teria caído fora há algum tempo, indubitavelmente. O estilo de vida parece ser incrível. Um sonho. E é, mas só para 0,0001% dos envolvidos com o surf (atletas tops, altos cargos das empresas de surfwear e mais alguns outros), ou seja, para aqueles que podem estar dentro da água quando e onde quiserem. O legal mesmo é pegar onda. Ficar em frente ao computador ou dentro de um escritório é uma enorme burrice humana. Neste momento, eu sou um dos burros, e você, caro leitor “envolvido com o surf”, sem ofensas, é o outro. Pior que isso: somos burros montáveis. Há alguém “trepado” em nós. Não dificilmente, esse alguém deve estar pegando onda agora mesmo.

Eu vejo a minha contribuição para o surf com os tempos contados, ao menos na função de colunista ou de escritor de artigos, ainda que seja uma atividade extra na minha vida, quase um hobby. Aos meus amigos, colegas, colunistas, editores, fotógrafos e jornalistas (envolvidos com o surf): procurem outras ocupações, outros trabalhos, outros empregos. Uma hora, o entusiasmo de fazer o surf crescer, ou apenas se desenvolver corretamente, acaba. E com ele vai o tempo. E boa parte da vida. No final de tudo, somos apenas o inconveniente e malcheiroso cachorro da namorada. Ou burros montáveis mesmo.

Muito obrigado a todos,

Lohran Anguera Lima.

Burros montáveis, também conhecidos como “Nós”.


Responses

  1. Triste, porém verdadeiro. Infelizmente, nós apaixonados pelo surf, sabemos que quem está no comando, la em cima, não esta muito interessado no desenvolvimento e evolução do surf, como ponte de aprendizado e vida. A ordem máxima é a maximizacao dos lucros e o crescente levante do surf no globo todo, que tem o fim de atrair cada vez mais público interessado no estilo de vida, não necessariamente no esporte. O surf é rico em suas várias formas, livre e singular. Tem muita cultura a ser explorada ainda e é de importante valor que isso seja passado a frente. Temos que mudar o foco e olharmos da ótica do desenvovimento individual do ser humano. Trazendo experiências, óticas e conteúdo verdadeiro para quem está aberto a isso e sempre buscando atingir os não interessados. Talvez minha visão não monetizada das coisas, complique algo, mas a deles é que não da pra continuar vivendo. Atingir as pessoas, da forma que seja e faze-las enxergar que existe o caminho da evolução. As pessoas parecem viver no ápice da vida, como se já não existisse uma evolução. Oba, chegamos no topo, vamos curtir! Enquanto isso o mundo está cheio de problema, o desenvolvimento humano esta cheio de problema, os sistemas já não funcionam, ou melhor, funcionam para os poucos ratos que dele fazem uso exclusivo, pessoas morrendo de fome, doentes, nós mesmos lugares de sempre e NADA, de NINGUEM. Os valores vão se perdendo e cada vez mais, as pessoas perdem consciência, ao invés de busca-la cada vez mais. Vou me conter, já furei a bolha do assunto e expandi demais. Mas não se iluda, tudo é relacionado de alguma forma. Eu acho necessária uma revitalização midiatica de surf, conteúdo batido, igual, mesmos moldes, outras caras. Parei de ler as revistas há mais de um ano, então não tenho uma opinião atual. Tá melhor? Se quisermos mesmo, teremos nós, que tomarmos as rédeas e ir atrás desta mudança. Não desanime, continue a escrever, voce escreve bem, Lohran. Seja para o surf ou para outro assunto, escreva! Esse lance dos sistemas me tiram do sério. Tinha mais coisa aqui dentro pra sair, mas fica pra próxima. Deixo aqui parte da minha indignacao! Um abraço, Brother. Peace!

  2. Pois é meu caro, compartilho do seu hobby, sua paixão e angustias com relação ao surf. Viver do esporte produzindo conteúdos e críticas inteligentes ainda é um sonho, num mercado tão individualista e frequentemente ignorante.
    O surf moderno passou de contracultura para mercadoria sofisticada. Assim fica difícil vender boas reflexões e coisas que vão além do consumo material e da imagem.
    Talvez sejamos como o pessoal da “old school”, eles eram chamados de alienados, mas defendiam um estilo d vida, e hoje muitos lucram com isso. Nos também parecemos alienados diante da realidade, mas persistimos com nossas idéias.
    Como diria Carlos Drummond “Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã”.

  3. Meu caro amigo “Burro”, aqui vai um convite de um “ex-Burro”!
    Rapaz, infelizmente o que penso e quero te falar não posso escrever aqui, pois os inteligentes do meio do surf (Não Burros) vão entender tudo erradoe vão me sacrificar.

    penso que sabe bem ao que me refiro . ..

    Vai aqui o meu convite Lohran…

    Admiro seu trabalho, ou hobbie, como for. Acho seus textos sensacionais, mas surf é fogo.
    Eu quero te convidar para tirar umas férias e vir me visitar em Cabo Verde.
    Aqui poderemos conversar a vontade e de repente não sai dai uma boa idéia.

    Não desanime, apenas aponte a caneta no olho certo!

    Um forte abraço
    Sérgio Machado
    http://www.afrikitesurf.com

  4. Lohran, identifiquei-me com seu texto. Acredito que muitos outros também o farão, afinal, há muitos “burros” por aí, não é? No entanto, quero lhe dizer uma coisa que, por eu já conhecê-lo relativamente bem, não precisaria ser falada.
    Neste último fim de semana estive num curso em São Paulo e o palestrante falava sobre o crescimento profissional em medicina. Ele disse que única pessoa idealista (ou “burro”, se preferir) envolvida nesse ramo é o calouro. Excetuando-se as exceções óbvias, eu concordo com ele: o calouro do curso de medicina é um dos únicos que, ao afirmar coisas como “vou trabalhar pelos necessitados sem esperar retorno financeiro”, realmente acredita naquilo.
    Com o passar do tempo o calouro entra em contato com a realidade da profissão: vê que o curso de medicina não é aquela maravilha que ele pensava que fosse; passa por dificuldades com professores e colegas; vê que o médico também erra, e que há muitas situações que estão fora de seu controle. Diante disso, ele vai perdendo o idealismo.
    Dito isso, ele nos passou uma mensagem: viva com seus ideais de calouro, se não há o perigo de você carregar frustrações das quais não consegue se livrar.
    Ele citou uma pesquisa publicada no British Medical Journal sobre a felicidade dos médicos ingleses. 56% eram pouco ou muito infelizes. 21% era totalmente feliz.
    Então ele perguntou: o que devemos ser/ter para alcançar a felicidade na medicina? O que é a felicidade?
    A definição de felicidade que nos foi passada, e que eu considerei muito boa, foi que “a felicidade é um acontentamento contínuo com o que somos, é um contínuo de bem estar físico, mental e afetivo.
    Não devemos mentir para nós mesmos, porque isso é um sinal de descontentamento com o que somos, o que afeta o nosso bem estar. Como você falou, devemos ser sinceros com nós mesmos. Quando um trabalho/hobby te deixa infeliz, está mesmo na hora de refletir se vale ou não a pena continuar nele. Quero te dizer para tomar a decisão que te deixa mais feliz, e para que, apesar dela, você mantenha a sua paixão pelo esporte.
    Abraços

  5. Realmente se você nao é um Julio Adler, Fred D’orey ou um Ricardo Bocão ( e esses caras ralaram bastante) fica dificil escrever sobre surf.

  6. […] um mês, escrevi o artigo “Quando a chama quer se apagar”. Sei que não foi determinante para a decisão de interromper a vida da PARAFINA, mas creio que […]


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