Near The Ocean

Quando a chama quer se apagar

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Quando a chama quer se apagar. Foto: photoforum.ru

Já faz alguns anos que estou envolvido com o esporte e, principalmente, com seus bastidores (campeonatos, revistas, sites, artigos, entrevistas e tudo mais). Envolvido com o esporte, aqui, não significa pegar onda, mas estar por traz de parte dos meios de comunicação do surf e dos negócios de surf. Sempre o fiz por prazer, (quase) nunca recebendo pagamento financeiro em troca. Benefícios, agrados e facilidades sim. Uns tapinhas nas costas de vez em quando. Muita gente acha o máximo ver alguém descendo a lenha na genial ASP e nas suas sempre bem sucedidas patifarias; nas quase nada exploradoras empresas de surfwear; nas profissionais, responsáveis e jamais errôneas atitudes dos atletas; e nos velozes e irretocáveis rumos profissionalizantes do esporte. Mas ninguém quer comprar a ideia. É o cachorro inconveniente e malcheiroso da sua namorada: bonitinho de longe, pegar no colo jamais. Há momentos em que me pego refletindo sobre o que faço no meio do surf. Como este, agora. Tempo dedicado, desentendimentos, entendimentos, satisfação, insatisfação, reconhecimento e desconhecimento. Tudo isso é colocado na balança do “vale a pena?”. Geralmente, o saldo é positivo devido à satisfação pessoal, mas há momentos em que a chama quer se apagar. Como este, agora.

Nesses momentos é que devemos ser sinceros com nós mesmos. Um sentimento de insatisfação começa a surgir. “Larga esse texto para lá”, “Dois dias para editar essa entrevista?”, “Quantos leram o que você escreveu?”. Vozes da consciência. E as coisas que fazemos nos bastidores do surf passam a não ser mais tão prazerosas. A incógnita de estar, ou não, no lugar certo torna-se parte do cotidiano. De maneira alguma, vejo essa síndrome como algo restrito a minha pessoa. Isso é evidente em muitos dos jornalistas, fotógrafos, editores e colunistas envolvidos com o surf. Principalmente naqueles que fazem disso o seu trabalho e forma de sustento. Eles possuem um olhar de lamentação, de cansaço, de insucesso. Algo como “Trabalho nisso há mais de 20 anos e, ainda, ando de Corsa ano 95”. Se alguém aqui tem um Corsa ano 95, eu acho legal. Para mim, escrever textos e participar dos bastidores do surf é uma atividade extra. Por isso, ainda, cá estou. Se fosse meu trabalho efetivo, teria caído fora há algum tempo, indubitavelmente. O estilo de vida parece ser incrível. Um sonho. E é, mas só para 0,0001% dos envolvidos com o surf (atletas tops, altos cargos das empresas de surfwear e mais alguns outros), ou seja, para aqueles que podem estar dentro da água quando e onde quiserem. O legal mesmo é pegar onda. Ficar em frente ao computador ou dentro de um escritório é uma enorme burrice humana. Neste momento, eu sou um dos burros, e você, caro leitor “envolvido com o surf”, sem ofensas, é o outro. Pior que isso: somos burros montáveis. Há alguém “trepado” em nós. Não dificilmente, esse alguém deve estar pegando onda agora mesmo.

Eu vejo a minha contribuição para o surf com os tempos contados, ao menos na função de colunista ou de escritor de artigos, ainda que seja uma atividade extra na minha vida, quase um hobby. Aos meus amigos, colegas, colunistas, editores, fotógrafos e jornalistas (envolvidos com o surf): procurem outras ocupações, outros trabalhos, outros empregos. Uma hora, o entusiasmo de fazer o surf crescer, ou apenas se desenvolver corretamente, acaba. E com ele vai o tempo. E boa parte da vida. No final de tudo, somos apenas o inconveniente e malcheiroso cachorro da namorada. Ou burros montáveis mesmo.

Muito obrigado a todos,

Lohran Anguera Lima.

Burros montáveis, também conhecidos como “Nós”.

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